Crônicas, contos e narrativas do passado, de gente que vive na ilha do Pico, ou estão espalhadas pelo mundo e tem muitas estórias para contar. Mande seu conto.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

D. Jaime Garcia Goulart - O bispo, o picaroto, o português.

Autor: Francisco Medeiros
São muito os Picarotos que a partir desta Ilha, por esse Mundo se notabilizaram, alguns não regressaram para aqui acabar os seus dias, mas muitos outros voltaram à Terra que os viu nascer.
Formam uma plêiade de valores, que nos honram e projectaram a Ilha, os Açores e Portugal, pelas cinco partes do Mundo.
Está neste caso o D. Jaime Garcia Goulart, Bispo de Timor, nascido na freguesia da Candelária, Concelho da Madalena, Ilha do Pico, Arquipélago dos Açores, a 10 de Janeiro de 1908 e falecido em Ponta Delgada, em 15 de Abril de 1997.
Sobre a sua vida como prelado da Igreja Católica, já muitos tem conhecimento da sua conduta, honradez e rectidão de princípios, sempre ao serviço dos outros.
Há, no entanto, episódios da sua vida como prelado, não de todos conhecidos, que evidenciam, a sua coragem, honradez, e firmeza de carácter, que o acompanhou durante a sua longa vida.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a província de Timor foi quase trucidada pela invasão e ocupação por tropas Japonesas. Durante aquela ocupação, na missão de Ossuem em 1942, um militar australiano foi gravemente ferido numa escaramuça provocada pelas forças japonesas.
Conhecendo a gravidade da situação, o então Padre Jaime, Administrador Apostólico, sem qualquer medo, transporta-o no seu próprio carro para local onde pudesse receber os primeiros tratamentos.
Os homens do Pico agigantam-se como a muralha de pedra que lhes deu berço, para enfrentar situações com o risco da própria vida.
 Esta tomada de atitude inspirada apenas por um acto humano, chegou ao conhecimento dos comandos japoneses que procuraram o Padre encostam-no à parede apontando-lhe uma arma ao peito… O Prelado mantêm-se firme e sereno, afirmando que faria o mesmo a qualquer outro necessitado de socorro, fosse japonês ou australiano. Os japoneses suspenderam o acto, acabando por desistir sem mais uma palavra.
Numerosos timorenses refugiados, acompanhados do clero de Timor foram recebidos na Austrália, na cidade de Armidal, New South Wales, durante a ocupação japonesa, onde passaram as primeiras semanas num acampamento militar abandonado. O Padre Jaime torna-se num refugiado como os outros não se poupando aos trabalhos da comunidade, incluindo pegar numa vassoura para varrer o chão, junto com os seus irmãos.
Durante a ocupação de Timor pelas tropas japonesas de Dezembro de 1941 a 12 de Dezembro de 1942 e o desenrolar das acções pelas forças aliadas naquela província Portuguesa de Timor para a desalojar os japoneses do referido território, a Santa Sé pediu ao Padre Jaime um relatório detalhado dos acontecimentos, durante aquele período.
Quando o relatório chegou ao Vaticano o Cardeal Secretário, após a leitura do tão esperado documento, disse: -Temos aqui um Bispo e um diplomata!
Estava encontrado o primeiro Bispo para a Diocese de Díli, cuja eleição ocorreu a 12 de Outubro de 1945.
Na primeira sessão do Concilio do Vaticano II, em Roma, um prelado de Timor Indonésio, abordou D. Jaime sobre as vantagens da união das duas metades de Timor, a favor de Indonésia. A reacção do Bispo D. Jaime foi enérgica perante a insinuação do prelado Indonésio, tendo informado o governo dos planos expansionistas de Jacarta.
Os primeiros boatos de uma invasão a Timor Leste por forças indonésias leva, o Governador Oscar Ruas convocar o conselho de governo da província, em Março de 1950, no qual é convidado para estar presente, o Bispo D. Jaime. Durante a reunião, discutia-se uma possível incursão das nossas forças no território de Timor Indonésio. Solicitando emitir a sua opinião, D. Jaime disse: É muito grave e cheio de riscos imprevisíveis qualquer tentativa de incursão das forças portuguesas no território vizinho. É mais avisado a defesa pura e simples do nosso território sem sairmos dos limites do Timor Português. Com esta opinião, unânimemente perfilhada pelos presentes, evitou-se assim uma invasão armada indonésia no território de Timor.
Quando O Bispo D. Jaime chegou a Timor vindo do seu refúgio na Austrália, por todo o lado, a catedral, os templos, as residências missionarias, os colégios, os internatos e escolas, estava tudo em ruínas pelos bombardeamentos japoneses e aliados durante a guerra.
Da população católica da Província tinham sido feitas milhares de vítimas, entre as quais, missionários, professores e catequistas. A população católica de Timor Leste estava reduzida a 30 000 numa área missionária de 19.000 Km2.
Durante uns curtos quatro anos D. Jaime, consegue reconstruir templos, construir novas escolas, entre as quais uma para formação de professores.
Desenvolve uma actividade socioeconómica entre a população, com uma fábrica de telha e tijolos dirigida por um engenheiro chinês e institui uma experiencia,, com uma cooperativa agrícola. Dotou ainda Diocese com a única tipografia privada da colónia onde mandou imprimir, entre outros, um caderno com vocabulário Português-Tétum e Tétum-Português, com cerca de 500 vocábulos e uma revista informativa mensal, a “Seara”. Até no desporto D. Jaime sempre atento às necessidades da população incentiva e apoia a fundação de um clube desportivo a União, para a prática de futebol.
Estavam dados os primeiros passos para a continuidade e evolução de Timor Leste, onde o Bispo D. Jaime Garcia Goulart permaneceu até 28 Janeiro de 1967, data em que deixou Timor, após 30 anos ao serviço daquela comunidade, com uma população superior a 400.000 mil habitantes mais de 80% católicos.
Vila de São Roque do Pico
Junho de 2011
Email do autor


diHITT - Notícias

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A JUSTIÇA NA ILHA DO PICO

ARQUIPÉLAGO DOS AÇORES-PORTUGAL
autor: Francisco Medeiros
Uma das principais razões da elevação da freguesia de São Roque do Pico a Vila, NA Ilha do Pico Açores, na primeira metade do século XVI, mais precisamente a l0 de Novembro de 1542, foi a dificuldade que as populações das freguesias do Norte da Ilha do Pico, Prainha e São Roque, estarem mal servidas com a administração da justiça.

A Administração da Câmara da Ilha estava sediada na Vila da Lajes do Pico, a cuja jurisdição pertenciam juízes e oficiais de justiça.

Esta situação causava vários inconvenientes, em virtude da grande distância e pelo facto das ligações serem feitas através da serra, por veredas de difícil acesso, com todos os inconvenientes das intempéries, A administração da justiça tardava e, quando chegava, já os roubos estavam consumados e os criminosos desaparecidos.

As populações do Norte e Sul do Pico, apesar de todas a carências no princípio do seu povoamento, expandiram-se nas criações de muito gado, para sua subsistência e que, mais tarde exportavam para outras ilhas. Esta produção de gados passou a ser cobiça de muitos homens vadios, que roubavam os animais nos matos, o que originou que os oficiais da Câmara das Lajes dirigissem uma carta em 30 de Junho de 1586 ao Rei Filipe I de Portugal, de que se transcrevem alguns excertos:”



“Apontamento das couzas que os ofiçiais da camara da Vila das Lages e’ m nome do povo pedem a sua M’de lhe faça merçe conçeder como por sua conta pede’m.” [Data: 30/6/1586]

Primeiramente pedimos a Vossa Majestade nos faça mercê de mandar ao capitão e governador dela, Jerónimo Dutra Corte Real, que nessa Corte reside, que se venha cumprir com sua obrigação do seu cargo e resida nestas ilhas donde é capitão…Também pedem a Vossa Majestade porquanto nesta ilha do Pico há muitas criações de gado e há muitos homens vadios que não querem trabalhar e vivem puramente de pilhar e roubar pelos matos os gados, e para esse efeito se vão a fazer casas de palha pelos matos e lá vivem, para mais a seu salvo furtarem e não serem vistos o que é causa de grande destruição dos gados e das almas sem lhe poderem valer pelo que se, se não atalhar, em poucos tempos se perderá tudo, o que é em grande prejuízo de Vossa Fazenda e do comum e dos soldados que Vossa Majestade tem na Ilha Terceira, por se sustentarem dos gados que vão desta ilha o mais do tempo, haja por bem que o capitão dela ou seu ouvidor com os oficiais da câmara com os homens da governança, tomando informação dos que isto fazem e mais outra ordem de Juízo os desterrem por certo tempo fora da ilha até serem emendados ou que lhe mandem que venham a morar dentro na vila porque desta maneira terão donde trabalhar por seu jornal.

Pedimos mais a Vossa Majestade haja por seu serviço que as devassas que se tiram cada ano e compram trigo para tornar a vender, e dos que casam com redes e passam gados, burel e almácega e outras coisas que a lei manda que se soem a tirar, se não tirem por a ilha ser tão pobre e não poderem os homens viver doutra maneira, o que é grande opressão para o povo.

Mais pedimos a Vossa Majestade nos faça mercê de haver por bem que os Almotacés que em esta câmara sirvam três meses assim como tem concedido à Ilha Terceira e à Ilha do Faial que é tudo uma capitania”- (Investigação de João Luis Francisco, na Torre do Tombo)

Filipe I de Portugal, II de Espanha, foi senhor de um dos maiores impérios que o mundo alguma vez conheceu. Filho de Carlos V e de Isabel de Portugal, assumiu o trono português em 1580, nas Cortes de Tomar, com a promessa de respeitar as tradições e autonomia do país.

Na carta dirigida ao monarca nota-se algumas situações que se prolongaram no tempo:

-. Os titulares de cargos públicos em comissão de serviço na Capital ou outras Localidades

-. O Comércio de candonga!

-. O Privilégio das capitais de distrito…?

- O Picaroto sabe sempre quando lhe atiram terra para os olhos, só que, pacifico como é, não gosta de criar conflitos!

Com a Revolução Liberal, a Ilha do Pico passou a ter uma das oito comarcas existentes nos Açores, com a designação de comarca da Ilha do Pico e em 1841 passou a denominar-se comarca do Pico. Em 1855, tinha cabeça de círculo de jurados na Vila de S. Roque, que era cabeça de comarca e compreendia três julgados: Um na Vila das Lajes, outro na Vila de Madalena e na Vila de S. Roque.

Por Decreto de 6 de Agosto de 1896, passou a denominar-se comarca da Ilha do Pico, com sete distritos de juízes de paz: Lajes, Madalena, Piedade, Prainha, Santo António, S. Mateus e S. Roque.

Depois de passar por várias vicissitudes, actualmente com a designação de Tribunal da Comarca da Ilha do Pico com sede em S. Roque do Pico, tem um juiz e um do procurador.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

EMIGRANTE PICAROTA ATINGE 109 ANOS EM TERRAS DA CALIFORNIA

Por Francisco Medeiros
Chama-se Júlia Espírito Santo Machado da Rosa, completou no passado dia 27 de Janeiro 109 anos de idade.


Nascida no Lugar do Campo Raso da freguesia da Candelária Concelho da Madalena Ilha do Pico – Açores, é possivelmente a mais idosa Portuguesa, hoje viva, imigrante nos Estados Unidos da América do Norte e talvez em todo o Mundo.


Júlia do Espírito Santo, emigrou, com a idade de 20 anos, acompanhada de um tio, António Machado irmão do pai já imigrante naquele estado, tendo embarcado no navio “Britania” no Porto de Horta em 25 de Setembro de 1922 directamente para os Estados Unidos.


Júlia do Espírito Santo, casou na Califórnia com José da Rosa, natural do mesmo lugar e freguesia também emigrado para a Califórnia que faleceu em 1973 com 78 anos de idade. Carpinteiro de profissão dedicava-se à construção de habitações em madeira, tendo ele próprio construído a casa onde a esposa reside actualmente com uma neta. Do casal nasceram um rapaz já falecido e uma rapariga que ainda se encontra viva.


Júlia do Espírito Santo Machado da Rosa, trabalha todo o dia, dedica-se à confecção de colchas em lã que vende. É completamente autónoma na sua higiene pessoal. Tem um hábito que é beber durante o dia 3 ou 4 chávenas de café descafeinado que acompanha com uma bebida alcoólica.


Era filha Felicidade do Espírito Santo, falecida em 1963 com 90 anos de idade e de Manuel Rodrigues Machado, falecido em 1937, com 88 anos de idade, casados em 23 de Janeiro de 1896.


Júlia do Espírito Santo Machado da Rosa, tinha mais cinco irmãos e duas irmãs, já todos falecidos, tendo naquela freguesia muitos sobrinhos.


A freguesia da Candelária foi uma das freguesias do Pico onde a população mais recorreu à emigração, para todas as partes do Mundo.


Segundo uma nota de José Carlos Costa no seu livro “A Viagem do Basalto” (2007), entre 1859 a 1979 emigraram daquela freguesia 866 Homens e 784 Mulheres, sem contar com aqueles que emigraram clandestinamente nas baleeiras, duas vezes a população residente naquela freguesia em 2006.


Desde o inicio do povoamento das Ilhas e na Ilha do Pico em especial, pela natureza dos solos agravada pela existência dos “mistérios”saídos dos vulcões, o crescente aumento da população residente nos núcleos habitacionais, movimentava-se à procura de melhores locais onde os solos eram propícios a extracção dos bens da terra. A Freguesia da candelária era uma das mais pobres em solos.


A Gente do Pico sempre viveu da agricultura e da pesca com todas as consequências e carência de bens essenciais à sua sobrevivência.


A Falta de caminhos de comunicação obrigava as populações a deslocarem-se na mesma Ilha por mar em embarcações de pesca, a remos e à vela, que simultaneamente eram utilizadas, para o transportes de pessoas e bens.


Era através destes contactos populacionais, efectuados com tempo de feição e nos meses de Verão, que se foram desenvolvendo os lugares e nestes, com aumento da população, foram surgindo as freguesias.


Com decorrer dos anos, a abertura de caminhos e estradas e a evolução dos meios de transportes para o exterior, a vida social e económica dos Açorianos, foi-se modificando, e a expansão de umas ilhas para outras, foi melhorando as condições de sobrevivência das populações.


A apetência da emigração Açoriana para fora do Arquipélago caracterizou-se histórica e instintivamente, com as deslocações frequentes das populações de umas Ilhas para outras. O início da emigração remonta ao século XVII, tendo como destinos: O Sul do Brasil, a emigração de casais, 50 famílias constituídas por 219 pessoas que embarcaram, no dia 29 de Março de 1677, no barco “Jesus Maria e José” na Horta, Ilha de Faial.


Em 1847, saíram do Arquipélago cerca de seis mil pessoas para São Paulo e Rio de Janeiro.


Mas só em meados do século XIX princípios do século XX é que se deu a maior abundância de emigração para os Estados Unidos que se prolongou até aos nossos dias.


O Canadá foi o último destino de emigração de açorianos, com relevância para os residentes nas Ilhas do Faial e do Pico, após o Vulcão dos Capelinhos em 1957, com a assinatura de acordos entre Portugal e o Canadá. Apesar de esta ser uma emigração muito recente, o número de açorianos que emigraram foi elevado.


Verificamos que entre l960 e o Ano 2000, terão emigrado de todo o Arquipélago do Açores, 81.470 pessoas e para o Estado Unidos e 77.597 para o Canadá, perfazendo um total de 159.067 pessoas.


As Bermudas, o Hawaii e a França na Europa, foram outros destinos de emigrantes deste arquipélago onde as condições de trabalho eram favoráveis, mas não tiveram grande expressão, por diversos condicionalismos.


De qualquer das maneiras há Açorianos em toda a parta do Mundo, podemos constata-lo pelo diário de bordo do “Hemingway”, escrito por Genuíno Madruga na sua 2ª viagem à volta do Mundo.


S. Roque do Pico


Fevereiro de 2011


xatinha@sapo.pt






quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Conto de Natal

Um Homem estranho num Jantar dos sem abrigo
Por Francisco Medeiros

Um dia destes que antecedem o Natal, encontrei um homem estranho num jantar de confraternização dos sem abrigo, disseminados por esse mundo.

Estava triste. O seu aspecto envelhecido era demonstrativo, de um ser que ao longo dos séculos, tinha sido oprimido por civilizações.

Contou-me ele que toda a sua vida tinha sido governado e explorado por monarcas e doutores da lei, por grupos e classes privilegiadas, para quem trabalhou toda a vida e não distribuíam com justiça um pouco do que ele próprio produziu, para viver com dignidade.

Nascido, de uma família humilde, vivia feliz com os avós, a mãe o pai e os irmãos e assim foi crescendo na harmonia do lar sem sobressaltos, onde era posto em comum os seus afazeres, a sua vivência sem atropelos, na fraternidade, na solidariedade, na dignidade, na confiança, no respeito mútuo, sem medos, nos direitos e deveres de cada um, para com o seu semelhante em sociedade.

Ao atingir a maioridade, foi alistado para cumprir o dever de defender a pátria. Para servir nas forças armadas recebeu um número, foi doutrinado com palavras que apelavam à sua bravura, proibido de dar opiniões e pensar com a própria cabeça e treinado para matar.

Com a mão armada, lançou bombas em todo o mundo, assassinando pessoas inocentes. Nunca foi esclarecido com transparência porque o fazia.

Ocupou territórios, que sabia não serem a sua Pátria. Muito mais tarde começou a olhar para o seu percurso de vida e descobriu que tinha sido enganado, traído.

Depois de percorrer vários mundos envolvido em guerras, envelhecido prematuramente por ferimentos no corpo e da alma, achou que devia regressar ao lar que o viu nascer.

Tinham-se passados séculos, quando chegou à aldeia onde tinha nascido, não encontrou a família. No local onde julgou existir a sua casa encontrava-se um enorme edifício de apartamentos. Encontrou alguns velhos como ele, sentados num banco de jardim, pareceram-lhe tristes, não os conhecia, e jovens não encontrara nenhum.

Contou-lhes que tinha nascido naquela localidade e apontou apara o grade edifício à sua frente, perguntou-lhes pelos familiares, mas todos responderam não os conhecer.

Um dos que ali estavam, o mais idoso a julgar pelo seu aspecto, disse que conhecia a história de uma família que ali residia habitavam uma casa com um grande quintal à volta, onde criavam diversos animais e extraiam da terra o necessário para sua subsistência e o remanescente era vendido no marcado. Viviam felizes nada lhes faltava até que um dia foram obrigados a abandona-la por ordem das autoridades.

A Empresa proprietária do edifício de apartamentos que lhe comprara a casa e o terreno circundante, vendeu-lhes um apartamento 70 vezes 7 mais caro, para isso tiveram de recorrer ao banco para pagar o apartamento em prestações.

O Casal teve que arranjar trabalho numa fábrica e para se deslocarem para o trabalho, o banco os tinha aliciado para comprarem um automóvel, mobiliário e electrodomésticos para o apartamento.

O casal teve que colocar os pais num lar de idosos e os filhos num infantário e assim viveram vários anos.

Um dia o casal chegou à fábrica onde trabalhavam há vários anos e verificaram um grande aglomerado de pessoas junto à entrada. Tinham sido despedidos. Não protestaram.

Voltaram para casa, verificaram que o dinheiro que tinha dado ao banco, já era mais que o suficiente para pagarem as prestações do apartamento. Pegaram nos filhos desapareceram de um dia para o outro.

Depois disso começaram a aparecer nas redondezas durante muitos dias uns senhores de colarinho branco e gravata à procura deles, indagavam junto das pessoas e dos vizinhos dos apartamentos, o seu paradeiro, alguma coisa que os pudessem localizar. Falavam em crédito mal parado!

Nunca mais souberam deles, apesar de haver várias suposições se tinham emigrado ou refugiado algures, mas diziam ser mais certo a primeira hipótese.

Um dia os homens vão viver sem medos, com o indispensável à sua subsistência. Haverá mais justiça social! Deixarão de cheirar a pólvora !

Dia Mundial da Paz

Vila de S. Roque do Pico.

Email do autor







































quinta-feira, 28 de outubro de 2010

NAUFRÁGIO DA BARCA CAROLINE EM 1901

Autor: Francisco Medeiros
O Jornal Ilha Maior de 15 de Outubro do corrente ano, notícia o avistamento de destroços da barca “Caroline”, no sítio da Meia Broa, nos baixios entre a Ponta do Areeiro e a pedra do comprido próximo da Ponta da Areia Larga, na Ilha do Pico Arquipélago doa Açores.

Esta notícia recordou-me uma conversa que tive com Amílcar Quaresma (1) já há alguns anos. Disse-lhe na altura que tinha na minha posse uma pequena tigela, em porcelana, que meu avô tinha recolhido da barca Caroline.

Ele pediu-me que lhe arranjasse uma foto da mesma, pois era sua vontade fotografar e recolher todos os salvados que existissem, para fazer parte de um hipotético museu ligado às coisas do mar - Museu do Mar, a instalar no Concelho da Madalena. A ideia foi-se com ele…?

Uma outra peça que julgo de algum valor e que encontrei na casa onde viveu meu Avô e mais tarde meu tio Alberto, foi uma tela onde estava desenhada a barca Caroline. Não sei como lhe foi parar às mãos, devia estar na camarinha do Capitão da barca e assim sendo, é possível que lhe tivesse sido oferecida pelo socorro aos sobreviventes. Na altura meu avô apreciaria mais uns cabos para o barco de que uma tela!


Foto histórica da Caroline encalhada na Meia Broa
 Meu avô, os irmãos e os primos, conhecidos pelos Chatinhas da Areia Larga, foram daqueles que, entre outros, com as suas embarcações ajudaram a salvar os 36 tripulantes da barca Carolina, naquela fatídica noite de 3 de Setembro de 1901.

Este naufrágio deu origem a que se iniciasse a construção do Farolim da Areia Larga, que entrou em funcionamento em 1905. Durante 74 longos anos aquele farolim manteve-se aceso, acabando por ser desactivado apenas em 1979, após a construção do farolim da cabeça do molhe de abrigo ao Porto da Madalena. Dado o actual estado de conservação, é uma boa altura para se pensar em preservar, pelo menos a base daquele farolim, que está associado e é um marco histórico daquele naufrágio.


Há dois anos, por ocasião das Festas Maiores do Concelho da Madalena, vi uma exposição de fotografias antigas de homens e barcos, relacionadas com a actividade marítima no canal e de toda a fronteira. Pudemos constatar o grande interesse que a mesma suscitou entre os visitantes.

Será que poderíamos ter uma sala com uma exposição fotográfica permanente como aquela, mas complementada com palamenta dos barcos e das lanchas do Pico, da pesca Industrial e artesanal e de todos aqueles que por esses mares dentro procuraram o seu sustento? E porque não um espaço onde se projectasse toda essa actividade em movimento? Será que ainda vamos a tempo?

O turista que vem de avião pela capital do distrito, quando nos visitam para conhecer a Ilha, dariam um pequeno passeio ao centro da Vila da Madalena, para desentorpecer as pernas da viagem do canal e, em poucos minutos, pela imagem podiam ver e fazer uma ideia do que foi a vivência dos que nos antecederam e a sua forma de ser.


Tigela da Barca Caroline

O Museu das Flores conseguiu recolher muitas peças do navio de passageiros “Slavonia”, que encalhou na baixa rasa da costa do Lajedo, com 597 pessoas a bordo, 225 tripulante e 372 passageiros, às primeiras horas do dia 10 de Junho de 1909. A torre do farol das Lajes das Flores, já construído, que dominaria aquela zona, na altura ainda não tinha montada a lanterna para entrar em funcionamento. Esta lanterna só chegou aos Açores uma semana depois do naufrágio, trazida pelo então capitão-de-mar-guerra Schult Xavier, nome que, mais tarde, foi dado ao navio de balizagem ao serviço de faróis.

O Naufrágio da barca Caroline deveu-se a erro de aproximação, julgando o Capitão estar a aproximar-se da Ilha do Faial, cujo farol da Ponta dos Capelinhos, em construção, só viria a estar activo em 1 de Agosto de 1903. No tempo, o partido da oposição ao governo atribuía aquele desastre ao desleixo no atraso da colocação da lanterna no farol. A instalação de faróis e farolins no Arquipélago do Açores não acompanhou a evolução e o aumento de navios de pesca, de carga e de passageiros, nas rotas dos Açores e entre o Ocidente e o Oriente.

A crise económica e de governabilidade, até à Republica em 1910, terá concorrido para esse atraso. Há um século como hoje!

Amílcar Quaresma deixou uma obra que hoje é uma preciosidade para consulta obrigatória para quantos continuam a gostar de saber das coisas do mar e da memória da nossa cultura. Cultura de um povo que se fixou numa zona difícil de sobreviver, que construiu os maiores monumentos da Ilha, os maroiços, para arrotear pequenas belgas onde pudesse colher o mínimo indispensável à sua sobrevivência. Gente que tinha no mar e no canal a sua Terra.
(1) Amílcar Quaresma –Filho de João Quaresma que foi gerente das Lanchas do Pico.
Francisco Medeiros

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O PICO CHEIO DE GENTE POR TODOS OS LADOS Verão de 2010


Autor:Francisco Medeiros
Com as festas de Verão o Pico enche-se de gente por todos os lados. Eles vêm dos quatro cantos do mundo, para rever parentes e amigos, trazendo consigo as malas cheias de saudades.
Muitos vêm pagar promessas, sabe Deus em que circunstâncias foram prometidas, a Santa Maria Madalena, ao Bom Jesus e à Senhora de Lurdes. Muitos dos que emigraram, especialmente os que com numerosa prole e agregados familiares mais numerosos conseguiram dar aos filhos uma melhor forma de vida mas foram enraizando, o tempo passando e a sua origem foi-se esfumando e nunca mais voltaram. Houve mesmo muitos que perderam a sua identidade. O Canadá e os Estados Unidos estão tão evoluídos que as pessoas quando lá chegam mudam de nome, tornam-se desconhecidos, adquirem nomes que não nos dizem nada.
Tenho tido contactos com alguns que já não têm parentes próximos por cá e a sua descendência já vai na terceira geração. Por isso, já não vêm porque os laços que os unem por lá são difíceis de cobrar. Se fosse ali ao lado, ou na ilha em frente, é possível que os visse-mos por cá mais amiúde.
Depois, há os fretes caríssimos, as arrelias de voos atrasados e um sem número de dificuldades e a falta de informação.
Há os de outros mundos, que vêm por aí abaixo, pela curiosidade, de variar os itinerários de férias, depois de um ano de trabalho afogado, nas grandes cidades, pela poluição, que teima em aumentar e sufocar aqueles que teimosamente tentam resistir. E, coisa curiosa, grande parte deles, talvez centenas, aproveitam os barcos de ver baleias e golfinhos e vão para o meio do mar em volta destas ilhas, onde as águas límpidas e a poluição não existe mesmo, como que a fugir duma chaga que já não retorna.
Não só o Pico mas todas as Ilhas do Arquipélago, há períodos, em que se sentem as quatro estações num só dia. É uma característica muito peculiar nestas Ilhas, cujos fenómenos climatéricos vêm sempre de Oeste para Leste com uma precisão quase matemática e isto durante o Inverno porque no Verão, embora a montanha se cubra de nuvens, ou com os seus característicos chapéus, nunca vem o que mostra.
No Inverno sim! O Pico o que nos mostra vem de certeza e a Nuvem da Prainha não engana ninguém.
Mesmo assim, no Outono e Inverno nos últimos anos, têm vindo ao Pico muitas excursões, dos estrangeiros e do continente Português, de grupos etários mais avançados, que por aqui vêm e têm tido a sorte de apanhar quadras de bom tempo e podem apreciar as Ilhas e a Montanha.
Vila de S. Roque do Pico
Agosto de 2010

CLUBE NAVAL DE S. ROQUE DO PICO RECORDANDO A REGATA DO CANAL

Autor: Francisco Medeiros
Há 20 anos, 19 entusiastas pelos desportos náuticos, fundaram o que é hoje o Clube Naval de São Roque do Pico.
Em boa hora o fizeram pois o Norte do Pico, sempre foi uma terra, ao longo dos séculos, povoada por homens, com um pé em terra e outro no mar, como disse o Poeta, Almeida Firmino.
Com muito trabalho, conseguem recuperar e aparelhar dois botes baleeiros, ajudados por antigos baleeiros e depois de alguns treinos estavam prontos para iniciar as suas actividades nos desportos náuticos.
Estava-se a comemorar os 450 anos de elevação da freguesia de São Roque a Vila, e aquela regata do Canal, Cais/Velas, Cais, organizada pelo Clube Naval de São Roque foi o maior acontecimento náutico desportivo das comemorações.
Pleno Verão, mês de Junho, dias 20 e 21, realizava-se a primeira e mais extensa regata de botes baleeiros, no canal que nos separa, e nos une, entre a Ilha Montanha e a Ilha Dragão que lhe fica em frente.
Foi um acontecimento inedito nestas duas Ilhas, que despertou a atenção e curiosidade nas freguesias com tradições baleiras, concentrando nas duas Vilas, centenas de pessoas para assistir ao belo espectáculo lhes proprocionaram as canoas baleeiras de velas enfunadas, não fossem elas as mais belas embarcações que há no mundo, como disse Raul Brandão.
Naquela regata tomaram parte, 9 botes baleeiros: Dois do Cais do Pico, dois da Calheta do Nesquim, um da Horta, três das lajes dos Pico e um das Ribeiras. Estes botes estavam equipados com antigos baleeiros e alguns jovens que estavam a dar os primeiros passos, no manejo e conhecimento da palamenta de um bote baleeiro.
De referir que tanto no Cais do Pico, como nas Velas, com as companhas do botes, misturaram-se antigos baleeiros, que de lagrimas nos olhos, recordaram com saudade alguns episódiso passados numa actividade que durante mais de um século, acompanhou o labor das populações ribeirinhas das nossas Ilhas.
Foi imprecionante a convivencia e o civismo entre os homens do mar, naqueles 2 dias, com as tripulações das canoas baleeiras, das lanchas de apoio e da tripulação da corveta Baptista de Andrade que apoiou toda a regata quer na ida quer no regresso ao Cais do Pico.
O Clube naval de São Roque do Pico, possui actualmente 4 botes e duas lanchas, que ao longo destes 20 anos foram recuperados, por construtores desta Ilha que ainda os há, e não perderam a mão nem o gosto.
O Clube Naval de São Roque do Pico, tem desenvolvido diversas actividades náuticas, mentem uma escola de Vela e Kaiak’s, e tomado parte em regatas entre clubes no Arquipélago, e além fronteiras. Em 1998 e 1999, fez-se representar em Lisboa na Expo e no Festival dos Oceanos, em Lisboa. Internacionalmente, tomou parte na Regata de botes baleeiros em New Bedford em 2005, e fez uma deslocação à Suécia.
Hoje há perto de 3 dezenas de botes baleeiros, em regatas organizadas pelos Clubes Navais e Clubes Náuticos, que foram sendo criados em localidades com tradições baleeiras, propositadamente para recuperar e reconstruir alguns botes que estão a ser usados pelos jovens, muitos deles filhos ou descendentes de baleeiros.
Em boa hora o fizeram, para dar continuidade à existência da embarcação mais emblemática dastas ilhas
Vila de S. Roque do Pico
Dezembro 2010

terça-feira, 22 de junho de 2010

PADRE MANUEL AUGUSTO DA SILVA

Autor: Francisco Medeiros.
O Padre Manuel Augusto da Silva nasceu na freguesia e concelho de São Roque do Pico, em 9 de Outubro de 1875, era o único varão de cinco filhos de Maria Madalena e Manuel Garcia da Silva, agricultores residentes naquela freguesia.

No tempo as dificuldades de estudos na ilha do Pico levaram-no a casa de um tio que residia na freguesia da Feteira na ilha do Faial, onde frequentou o Liceu da Horta e concluiu o Curso Geral dos Liceus.

Ingressou no Seminário de Angra onde entrou para o curso de Teologia e foi ordenado sacerdote em 10 de Março de 1900, na Capela do Paço Episcopal, em Angra do Heroísmo.

A sua primeira colocação como sacerdote foi na Paróquia da freguesia da Fajã Grande na ilha das Flores, de onde em Julho de 1901 embarcou para os Estados Unidos.

Chegado ao novo mundo o Padre Manuel Augusto da Silva, foi acolhido em casa de emigrantes das comunidades portugueses da Nova Inglaterra.

Ali desenvolveu uma acção meritória como Missionário, numa altura, princípios do século XX, em que os emigrantes do Pico e do Faial começaram a chegar com mais frequência aos Estados Unidos. As dificuldades de adaptação e fixação eram tantas que o Padre Silva, servindo sempre com espírito de Missão, procurava minorar as suas dificuldades ajudando todos quantos dele necessitavam nos primeiros passos em terra estranha.

Desenvolveu acções de vária ordem especialmente no campo social e cultural.

Exerceu o seu múnus em Tauton, New Bedford e Fall River, ligado á fundação de três paróquias, uma das quais uma Igreja dedicada a N. Sra. de Lurdes e São João Baptista e em 1920, na instituição da primeira escola de língua Portuguesa.

O Padre Manuel Augusto da Silva faleceu nos Estados Unidos em 19 de Outubro de 1928.

Viveu pobre e morreu pobre, não teve casa paroquial própria, vivia do acolhimento generoso em casa de emigrantes.

Do seu testamento apenas consta o indispensável para o seu funeral, o qual foi uma das maiores manifestações prestadas a um sacerdote da religião católica.

A Paróquia de São Roque do Pico, não estando alheia ao valor deste seu conterrâneo, um dos mais ilustres filhos do concelho, prestou ao insigne sacerdote significativa homenagem, no dia 10 de Março em 2000, celebrando o primeiro centenário da sua ordenação sacerdotal, num acto com missa concelebrada na Igreja Matriz, presidido pelo Bispo resignatário de Macau D. Arquimino Costa, ladeado por vários sacerdotes da ilha, na presença de numerosos paroquianos, da Filarmónica União Artista e do presidente da Câmara.

O Padre Manuel Augusto da Silva era tio do Padre Isidoro da Silva Alves nascido em São Roque do Pico, que foi Missionário em Timor.

Era também padrinho de baptismo, que dele herdou o nome, Manuel Augusto, do engenheiro Manuel Augusto da Costa, Chefe dos Serviços de Obras Publicas da Ilha do Pico que residia na Vila da Madalena e também esteve presente ao acto.

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MEMÓRIAS E VIVÊNCIAS DA ILHA DO CORVO

Autor: Francisco Medeiros
Vista de longe a Ilha do Corvo parece uma grande baleia morta a flutuar sobre o mar. Os Navios da Empresa Insulana de Navegação que faziam regularmente escala naquela ilha ao aproximarem-se, avistavam por estibordo uma única e pequena luz a piscar, era o farol da Ponta Negra, sobranceiro ao Porto Novo, ao lado de dois moinhos de vento e próximo do portinho do boqueirão, onde desde o inicio do povoamento se processava quase todo o movimento de passageiros, carga e descarga de mercadorias. Mais distante e por bombordo avista-se o farol da Ponta do Albarnaz, o mais Ocidental de Portugal e da Europa, situada na freguesia de Ponta Delgada, na Ilha das Flores.
Na Ilha do Corvo sobressai o verde das pastagens e da vegetação, a costa é escarpada, sendo a parte mais baixa virada ao Sul, onde se situa o único núcleo populacional, que habita inúmeras habitações irregularmente implantadas. Parte das habitações, embora todas rebocadas interiormente, apresentava o exterior em pedra negra.
As ruas da Vila eram muito estreitas e irregulares, havendo zonas entre casas onde só era possível cruzarem-se duas pessoas. A rua da Matriz, a principal, destacava-se por ser a única com o piso de calhaus rolados trazidos da costa. Há 52 anos estava em construção um caminho, já com alguns quilómetros, para acesso às pastagens e ao Caldeirão. Um caminho que levou anos a concluir.
Os Corvinos viviam numa comunidade bastante solidária, de entreajuda, num respeito mútuo entre todos os seus habitantes.
Quase todas ou mesmo todas as famílias possuíam um rádio receptor alimentado a pilhas ou baterias. Neste caso as baterias eram carregadas por geradores eólicos (aerodínamos). Os Corvinos estavam bem informados de tudo o que se passava no exterior, através da rádio ou jornais e revistas que chegavam do exterior.
Os dias no Corvo eram passados sem sobressaltos, todos se conheciam e as relações eram óptimas. Para mim os dias eram passados ou na cavaqueira junto ao Império do Outeiro, onde se juntavam os mais idosos, nas mercearias ou então na pesca ou na leitura.
No arquivo da Câmara existia uma pequena biblioteca com livros fornecidos pela Junta Geral da Horta. Nos dois anos que lá estive, à excepção dos livros técnicos, todos os outros foram lidos por mim, grande parte à luz de petróleo, pois no tempo não havia electricidade.
Em 1957 até 1959, era possível, após o almoço, jogar-se um jogo de cartas ou de xadrez na Repartição de Finanças, que situava-se no largo do Outeiro, num edifício com uma só sala, com quatro secretárias. Uma para o chefe da repartição, outra para o tesoureiro, uma para um aspirante e outra para o fiscal de selo. Foi a primeira repartição do país com atendimento personalizado, não havia balcão de atendimento ao público. Passavam-se muitos dias sem que ali aparecesse qualquer contribuinte, a não ser a compra de algum selo ou papel selado de má memória.
Recordo-me que havia no Corvo um agricultor, já não me lembro o seu nome, que quando ia pagar a contribuição predial, queixava-se de que todos os anos aumentavam uns centavos. Certo dia o Professor Alfredo Lopes combinou com o Chefe de Finanças, Luís Moreira e o Tesoureiro, para que este lhe fizesse a cobrança por cerca de um terço do montante da contribuição. Dias depois lá compareceu o agricultor na repartição, com a importância que tinha pago no ano anterior. Nem o Tesoureiro, nem o chefe da Repartição de Finanças conseguiram convence-lo que a contribuição tinha baixado e não saiu da Repartição sem pagar o que estava estabelecido, com o respectivo recibo como garantia, não fosse o diabo tecê-las!
No meu primeiro ano no Corvo (1957), os jovens do sexo masculino festejavam o dia 25 de Abril com um cortejo bastante original. Ao que consta não era praticado em nenhuma outra Ilha dos Açores. Organizavam um cortejo composto por um carro de bois, em cima iam os que tinham casado naquele ano, os que iam casar puxavam o carro e os que estavam namorados iam à frente varrendo o caminho. O cortejo terminava no largo do Outeiro, onde estava uma coroa enfeitada com chifres, presa a um mastro de bandeira, que descia para coroar todos os que por ali passavam. Era um divertimento aceite por todos, se bem que alguns no dia não passavam pelo Outeiro.
Dias depois disseram-me que não me tinham convidado para ir no carro, com receio de eu não aceitar pois tinha chegado no mês anterior e casado naquele ano. Foi o último ano que se fez o cortejo, possivelmente por conselho dos mais idosos e para evitar futuras consequências menos convenientes.
Conheci no Corvo um trancador de baleias, José Inácio Rafael, que tinha uma particularidade muito estranha. Vomitava em terra antes de embarcar e no mar nunca vomitava. Quando lá estive era ele que tinha a concessão do transporte da mala do correio, de e para bordo dos navios que faziam escala regular no Corvo. O José Rafael, enquanto novo, esteve ligado a algumas peripécias, próprias dos lugares pequenos. Contou-me ele que certa tarde, quando regressava ao porto vindo da caça à baleia ao leme do bote à vela, com boa aragem e mar cavado do Sudoeste, já próximo do porto arribou o bote, este ficou no vão da vaga e quando esta rebentou alagou toda a companha ficando o bote ficou meio de água. Ficaram todos zangados com ele e como resposta o Rafael disse:
- Ó rapazes, isto não foi nada, se era como eu queria a gente tinha era revirado!
A Filarmónica do Corvo com cerca de 12 tocadores, a Lira Corvense, vivia com dificuldades financeiras. Para resolver esta situação foi resolvido ligá-la ao Núcleo Legionário que ao tempo existia no Corvo. Esta atitude mereceu a reprovação de uma parte de corvinos, entre eles o José Rafael. Este como retaliação um dia, pela noite, entrou na copeira do império do outeiro, abriu o armário onde estavam guardados os instrumentos, pegou num braçado em alguns e foi lança-los num buraco da Ponta Negra, junto à costa.
Passaram-se alguns dias sem se saber com os instrumentos tinha desaparecido.No tempo o Presidente da Câmara homem que conhecia bem e era respeitado pelos seus munícipes. Certo dia, chegado ao Outeiro onde se encontravam vários Corvinos entre os quais o José Rafael, disse que os instrumentos tinham que ser recuperados porque faziam muita falta. Fez uma pausa olhou para todos os presentes um a um e apontou o Rafael como sendo o autor da proeza.
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quarta-feira, 19 de maio de 2010

PADRE ISIDORO DA SILVA ALVES

Autor: Francisco Medeiros
O Padre Missionário Isidoro da Silva Alves nasceu em São Roque do Pico, na Ilha do Pico, nos Açores, em 15 de Janeiro de 1924, era filho de filho de Mariana Augusta da Silva e de Manuel Isidoro Alves Garcia, família de agricultores. 

Criado em ambiente familiar cristão, Isidoro Alves era filho de gente humilde. Após o ensino primário dedica-se à agricultura, no amanho das terras como os seus antepassados mas, sonha como todos os jovens da sua idade, para ele o sonho era um dia vir a ser Sacerdote e Missionário. Um seu tio, Padre Manuel Augusto da Silva, também missionário na Nova Inglaterra terá tido influencia, nesta sua vocação.

Ingressou no seminário de Angra com a idade de 16 anos, não sem algumas dificuldades, pois o ingresso naquela instituição estava limitado a jovens com um máximo de 14 anos.

Os seus estudos decorrem com normalidade mas com dificuldades económicas, sempre que vinha ao Pico em férias, ocupava os seus tempos na agricultura, dando dias p’ra fora, nas vinhas e roças do mato, auferindo ao tempo sete escudos e meio.

O seu aproveitamento como estudante do seminário, chega ao conhecimento de um benfeitor, luso brasileiro, que conhecendo as dificuldades económicas familiares, se presta a concorrer com ajuda financeira, no prosseguimento dos seus estudos.

Confidenciou-me que quando seminarista, foi encontrado num caminho em S. Roque com um molho de pasto às costas, tendo alguém lhe dirigido estranha pergunta !

- Já deixaste o seminário ?

Ordenado padre na Sé de Angra em 1 de Junho de 1952, celebrou Missa Nova em 13 de Julho do mesmo ano na Matriz de São Roque.

Porque o seu espirito de missão o acompanhava sempre, entrou em contacto com o Bispo de Timor, D. Jaime Garcia Goulart, natural da Candelária desta Ilha, em férias no Cais do Pico, desses contactos renasceu o seu desejo de seguir para as missões em terras Timorenses.

Após várias diligencias junto da diocese chega ao Oriente na companhia do Bispo D. Jaime, em 1953 no dia de todos os Santos.

Colocado como  professor do Seminário Menor, em Dare onde esteve 6 anos, logo de inicio teve a preocupação de ver como funcionava toda a vida e sistema interno dos seminaristas, verificando a precariedade da sua alimentação que procurou melhorar. Conseguiu montar uma moagem vinda da Metrópole para moer e como complemento a construção de um forno.

Depois da frustração da primeira fornada, as restantes saldaram-se pelo sucesso tendo mesmo pela Páscoa cozido folares à moda do Pico, com que brindou as missões locais, elementos do Comando Militar, chegando mesmo à mesa do Governador.

Orientou o cultivo de uma granja anexa ao Seminário em proveito dos alunos que ali estudavam, enriquecendo a sua alimentação.

Em 1961 foi Vigário na Missão de Soibada, onde se manteve por algum tempo, tendo regressado a Dili como procurador e administração das missões e secretário particular do Bispo D. Jaime.

Dirigiu uma fábrica de cerâmica, promovendo mão de obra, dando trabalho a tantos necessitados. Com os lucros da vendas dos objectos fabricados foram subsidiadas a construção de três igrejas.

Sugere a D. Jaime para que a Diocese fosse dotada com uma tipografia de que foi seu superintendente.

A Diocese editava uma revista a SEARA, que teve como seu primeiro director o Pe. Ezequiel Enes Pascoal, também Açoreano. Esta Revista era enviada mensalmente por via Aérea para o Ministério do Ultramar em Lisboa.

Era a única tipografia privada da colónia, onde consegue desenvolver uma acção notável: O fabrico de todos os cadernos, escolares, para o seminário e as escolas orientadas pelas missões.

Posteriormente foi cooperador e superior da Missão de Aivaro e Ossu, respectivamente em 1967 e 1974 encontrando-se nesta última quando se deu a descolonização.

A sua tenacidade em crer sempre ajudar os outros, fizeram dele um verdadeiro Missionário polivalente em todas as suas actividades sempre com o espirito de bem servir para minorar as carências dos seus irmãos para que o seu futuro sócio económico fosse mais suave, toda esta acção chegou a merecer reparo de alguns colegas.

Deste facto e para não ferir a hierarquia a que pertencia e sempre respeitou, levou o Padre Isidoro, com toda a transparência com que sempre pautou a sua conduta, a aconselhar-se com o seu prelado que nele tinha depositado toda a confiança, obtendo como resposta:

- Quem anda fás poeira, a poeira incomoda, continua a andar !

É por atitudes destas que os católicos Timorenses que na altura rondavam cerca de 80%, da população de Timor-Leste mais de 400 mil corações, veneravam o seu Bispo, que com eles viveu mais de 30 anos: Que atendia pessoalmente à porta, ao telefone e conduzia ele próprio o seu carro, e dizia, com fina ironia mas, sem malícia, que era provavelmente em todo o muno o único que tinha por porteiro e condutor um Bispo.

Disse-me um Picaroto, em comissão militar em Timor, contemporâneo do Padre Isidoro, que se o conhecimento é cultura, então o “Padre Isidoro é um dos Padres mais cultos da nossa Ilha”.

A sua última missão foi em Ossu quando se deu a descolonização tendo deixado Timor em Agosto de 1975 após mais de 20 anos como Missionário e regressado à Ilha do Pico.

Nesta ilha o Padre Isidoro acumulou as paroquias da Piedade e Ribeirinha, de Santo Amaro e Prainha, duas paróquias em simultâneo. Nesta última freguesia, concorreu para restauro as colunas das naves da Igreja que se encontravam cobertas de cal, o restauro do Salão Paroquial e a construção de uma cozinha anexa.

Curiosamente em Timor o Padre Isidoro, teve como aluno do Seminário um jovem Timorense, filho de um catequista, que chegou à Presidência da mais jovem República do século XXI, Xanana Gusmão a quem alcunhou de, Ibum Mider que em tétum quer dizer, lábios doces, por ser muito comedido e meigo nas suas falas.

A obra Missionária do Padre Isidoro, teve sempre por base a promoção humana ensinando os nativos, a maneira de tirar o melhor partido dos seus recursos naturais, promovendo a sua formação profissional e cultural.

Em 2002, ano do seu falecimento os paroquianos de São Roque do Pico, prestaram significativa homenagem ao Padre Isidoro no aniversario de 50 anos de vida sacerdotal
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