Crônicas, contos e narrativas do passado, de gente que vive na ilha do Pico, ou estão espalhadas pelo mundo e tem muitas estórias para contar. Mande seu conto.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Estação Baleeira de Santo Amaro do Pico

 por Francisco Medeiros
Embora não se saiba ao certo a data do início da caça à baleia em Santo Amaro na ilha do Pico, a mesma terá começado nos finais do século XIX. Sabemos que em 1898 existiam duas armações baleeiras: uma pertencente a Manuel José Teixeira e Outros, que era conhecida pela Companhia Baleeira dos Teixeiras, e uma outra de Baltazar Luís Sarmento e Outros. Nestas duas armações grande parte dos baleeiros também era sócia.
Os botes conhecidos tinham os nomes de Santo Amaro, Santa Ana, São Joaquim, Santo Agostinho e Espírito Santo.
Foram oficiais destes botes, mestre Manuel José Teixeira, Estulano Nunes Teixeira, José Francisco d'Ávila, José António de Matos, este ao tempo com 81 anos de idade, João Luís, Amaro Nunes e José Teixeira Soares, este oficial baleeiro de renome tinha a alcunha de Caçapinha, embarcou de salto da marca das cavalas pela calada da noite numa baleeira americana, onde exerceu a caça à baleia.
Dos trancadores, pela sua destreza, destacou-se Manuel Lopes, que mais tarde também foi oficial. Este Manuel Lopes foi condecorado com a medalha de Socorros a Náufragos pela Rainha D. Amélia aquando da visita Régia à Horta, em 28 de Junho de 1901, por ter salvado, junto ao Porto de Santo Amaro, duas moças, uma de Santo Amaro e outra da Ribeirinha, que foram apanhadas por uma vaga de mar ao passar pelo varadouro, quando iam para a escola, que funcionava junto ao Porto.
Outro trancador foi António Costa, que desapareceu preso à linha do arpão depois de trancar uma baleia, acidente ocorrido, em 2 de Outubro de 1917. António Costa era pai de José Teixeira Costa, que possuía em Santo Amaro do Pico um estaleiro de construção naval.
 Após este acidente, os baleeiros suspenderam a caça à baleia em Santo Amaro do Pico motivados pelo pesar dos familiares.
Conta-se que, depois de a baleia ter sido rebocada para terra, os baleeiros quando procediam ao seu esquartejamento tentaram procurar o inditoso baleeiro nos intestinos da baleia, mas foram infrutíferas as suas diligências.
Em Santo Amaro a vigia de baleia situava-se no Caminho de Cima e abrangia uma curta área do canal Pico/São Jorge, limitada à potência dos óculos de alcance e binóculos ao tempo utilizados.
A vigia era feita alternadamente nos meses de Verão, quando o tempo o permitia, pelos baleeiros com mais experiência. Destes baleeiros vigias os que mais se distinguiram foram o Manuel Grande, que também foi oficial baleeiro, o Manuel Lopes, que era trancador e mais tarde foi oficial, o Manuel Jacinto, o Manuel António de Oliveira, o António Costa e outro com a alcunha de Carapanta, que também foi oficial baleeiro.
Há ainda a referir em Santo Amaro do Pico mais dois oficiais baleeiros, Manuel António da Terra e Ricardo Vargas, a quem foram concedidas cartas de oficial baleeiros em 1920 e 1921, respectivamente.
No tempo as baleias eram rebocadas para o Porto pelos próprios botes, onde eram esquartejadas. Os toucinhos e as gorduras eram derretidos em caldeiros a fogo directo, em instalações cobertas, do lado Oeste do Porto Santo Amaro, junto à costa. Consta que naquela estação baleeira, no século XIX, terão sido derretidas baleias caçadas por uma Armação Baleeira da Calheta do Nesquim.
A caça à baleia em Santo Amaro do Pico terminou em Outubro de 1917, na sequência do referido acidente.
Alguma desta informação, foi-me fornecida por marítimos de Santo Amaro do Pico, alguns já falecidos.
Vila de São Roque do Pico
Julho de 2011-07-31

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A CAPUCHA E A CRIZE


por Francisco Medeiros
Estava ouvir alguns comentadores da SIC, a pronunciar-se sobre a entrevista de João Ferreira ao Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, sobre a situação económica Portuguesa actual, provocada por especulações de vária ordem.
Quase no final os comentadores trocaram argumentos sobre a cobrança de impostos pelos prestadores de serviços individuais, nas pequenas empresas, no pequeno comércio, e os que em geral vedem qualquer produto, ou prestam individualmente qualquer serviço. Serviços, e vendas que com recibo acrescem mais IVA, mas sem recibo nem tanto...dividimos a meias, ganham os dois? Há ainda alguém quem duvida que os Portugueses são mestres no desenrascanço? É lindo...entendem-se perfeitamente, e cá vamos à nossas vida que ninguém nos dá nada? Andam é a assaltar-nos as algibeiras?
Isto porque o número dos desempregados que em quase todos os sectores vai aumentando assustadoramente, há que conseguir uns biscates, para comprar o pão de cada dia!
Fiscalização só de porta em porta, não estou a ver os pagadores de impostos, em pé atrás duma bicha para pagar impostos.   
Ao ouvir aqueles comentadores, lembrou-me de uma senhora que tinha a alcunha de “Capucha”,( Já fiz várias diligências para saber o nome de senhora mas não consegui ) que nos anos cinquenta, vinha de Santa Luzia vender fruta para o Cais do Pico.
Aquela senhora foi a primeira a pagar Imposto por Conta quando foi levar a linguiça a casa do Dr. Tiberio e este sem saber da dádiva, lhe cobrou  a consulta que no tempo  eram 70$00, sem lhe passar recibo. No tempo não se pagava IVA?
Ela não só reembolsou a linguiça, pois foi pela cozinha dizer que a restituíssem, como a foi vender por 100$00, tendo ganho em toda a operação 30$00, isto tudo sem recibo ou pagamento de IVA.
Vai ser lindo... vai?
Quem muito abarca pouco aperta!
Desde a freguesia dos Campeões Nacionais de Voley


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segunda-feira, 11 de julho de 2011

D. Jaime Garcia Goulart - O bispo, o picaroto, o português.

Autor: Francisco Medeiros
São muito os Picarotos que a partir desta Ilha, por esse Mundo se notabilizaram, alguns não regressaram para aqui acabar os seus dias, mas muitos outros voltaram à Terra que os viu nascer.
Formam uma plêiade de valores, que nos honram e projectaram a Ilha, os Açores e Portugal, pelas cinco partes do Mundo.
Está neste caso o D. Jaime Garcia Goulart, Bispo de Timor, nascido na freguesia da Candelária, Concelho da Madalena, Ilha do Pico, Arquipélago dos Açores, a 10 de Janeiro de 1908 e falecido em Ponta Delgada, em 15 de Abril de 1997.
Sobre a sua vida como prelado da Igreja Católica, já muitos tem conhecimento da sua conduta, honradez e rectidão de princípios, sempre ao serviço dos outros.
Há, no entanto, episódios da sua vida como prelado, não de todos conhecidos, que evidenciam, a sua coragem, honradez, e firmeza de carácter, que o acompanhou durante a sua longa vida.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a província de Timor foi quase trucidada pela invasão e ocupação por tropas Japonesas. Durante aquela ocupação, na missão de Ossuem em 1942, um militar australiano foi gravemente ferido numa escaramuça provocada pelas forças japonesas.
Conhecendo a gravidade da situação, o então Padre Jaime, Administrador Apostólico, sem qualquer medo, transporta-o no seu próprio carro para local onde pudesse receber os primeiros tratamentos.
Os homens do Pico agigantam-se como a muralha de pedra que lhes deu berço, para enfrentar situações com o risco da própria vida.
 Esta tomada de atitude inspirada apenas por um acto humano, chegou ao conhecimento dos comandos japoneses que procuraram o Padre encostam-no à parede apontando-lhe uma arma ao peito… O Prelado mantêm-se firme e sereno, afirmando que faria o mesmo a qualquer outro necessitado de socorro, fosse japonês ou australiano. Os japoneses suspenderam o acto, acabando por desistir sem mais uma palavra.
Numerosos timorenses refugiados, acompanhados do clero de Timor foram recebidos na Austrália, na cidade de Armidal, New South Wales, durante a ocupação japonesa, onde passaram as primeiras semanas num acampamento militar abandonado. O Padre Jaime torna-se num refugiado como os outros não se poupando aos trabalhos da comunidade, incluindo pegar numa vassoura para varrer o chão, junto com os seus irmãos.
Durante a ocupação de Timor pelas tropas japonesas de Dezembro de 1941 a 12 de Dezembro de 1942 e o desenrolar das acções pelas forças aliadas naquela província Portuguesa de Timor para a desalojar os japoneses do referido território, a Santa Sé pediu ao Padre Jaime um relatório detalhado dos acontecimentos, durante aquele período.
Quando o relatório chegou ao Vaticano o Cardeal Secretário, após a leitura do tão esperado documento, disse: -Temos aqui um Bispo e um diplomata!
Estava encontrado o primeiro Bispo para a Diocese de Díli, cuja eleição ocorreu a 12 de Outubro de 1945.
Na primeira sessão do Concilio do Vaticano II, em Roma, um prelado de Timor Indonésio, abordou D. Jaime sobre as vantagens da união das duas metades de Timor, a favor de Indonésia. A reacção do Bispo D. Jaime foi enérgica perante a insinuação do prelado Indonésio, tendo informado o governo dos planos expansionistas de Jacarta.
Os primeiros boatos de uma invasão a Timor Leste por forças indonésias leva, o Governador Oscar Ruas convocar o conselho de governo da província, em Março de 1950, no qual é convidado para estar presente, o Bispo D. Jaime. Durante a reunião, discutia-se uma possível incursão das nossas forças no território de Timor Indonésio. Solicitando emitir a sua opinião, D. Jaime disse: É muito grave e cheio de riscos imprevisíveis qualquer tentativa de incursão das forças portuguesas no território vizinho. É mais avisado a defesa pura e simples do nosso território sem sairmos dos limites do Timor Português. Com esta opinião, unânimemente perfilhada pelos presentes, evitou-se assim uma invasão armada indonésia no território de Timor.
Quando O Bispo D. Jaime chegou a Timor vindo do seu refúgio na Austrália, por todo o lado, a catedral, os templos, as residências missionarias, os colégios, os internatos e escolas, estava tudo em ruínas pelos bombardeamentos japoneses e aliados durante a guerra.
Da população católica da Província tinham sido feitas milhares de vítimas, entre as quais, missionários, professores e catequistas. A população católica de Timor Leste estava reduzida a 30 000 numa área missionária de 19.000 Km2.
Durante uns curtos quatro anos D. Jaime, consegue reconstruir templos, construir novas escolas, entre as quais uma para formação de professores.
Desenvolve uma actividade socioeconómica entre a população, com uma fábrica de telha e tijolos dirigida por um engenheiro chinês e institui uma experiencia,, com uma cooperativa agrícola. Dotou ainda Diocese com a única tipografia privada da colónia onde mandou imprimir, entre outros, um caderno com vocabulário Português-Tétum e Tétum-Português, com cerca de 500 vocábulos e uma revista informativa mensal, a “Seara”. Até no desporto D. Jaime sempre atento às necessidades da população incentiva e apoia a fundação de um clube desportivo a União, para a prática de futebol.
Estavam dados os primeiros passos para a continuidade e evolução de Timor Leste, onde o Bispo D. Jaime Garcia Goulart permaneceu até 28 Janeiro de 1967, data em que deixou Timor, após 30 anos ao serviço daquela comunidade, com uma população superior a 400.000 mil habitantes mais de 80% católicos.
Vila de São Roque do Pico
Junho de 2011
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quinta-feira, 21 de abril de 2011

A JUSTIÇA NA ILHA DO PICO

ARQUIPÉLAGO DOS AÇORES-PORTUGAL
autor: Francisco Medeiros
Uma das principais razões da elevação da freguesia de São Roque do Pico a Vila, NA Ilha do Pico Açores, na primeira metade do século XVI, mais precisamente a l0 de Novembro de 1542, foi a dificuldade que as populações das freguesias do Norte da Ilha do Pico, Prainha e São Roque, estarem mal servidas com a administração da justiça.

A Administração da Câmara da Ilha estava sediada na Vila da Lajes do Pico, a cuja jurisdição pertenciam juízes e oficiais de justiça.

Esta situação causava vários inconvenientes, em virtude da grande distância e pelo facto das ligações serem feitas através da serra, por veredas de difícil acesso, com todos os inconvenientes das intempéries, A administração da justiça tardava e, quando chegava, já os roubos estavam consumados e os criminosos desaparecidos.

As populações do Norte e Sul do Pico, apesar de todas a carências no princípio do seu povoamento, expandiram-se nas criações de muito gado, para sua subsistência e que, mais tarde exportavam para outras ilhas. Esta produção de gados passou a ser cobiça de muitos homens vadios, que roubavam os animais nos matos, o que originou que os oficiais da Câmara das Lajes dirigissem uma carta em 30 de Junho de 1586 ao Rei Filipe I de Portugal, de que se transcrevem alguns excertos:”



“Apontamento das couzas que os ofiçiais da camara da Vila das Lages e’ m nome do povo pedem a sua M’de lhe faça merçe conçeder como por sua conta pede’m.” [Data: 30/6/1586]

Primeiramente pedimos a Vossa Majestade nos faça mercê de mandar ao capitão e governador dela, Jerónimo Dutra Corte Real, que nessa Corte reside, que se venha cumprir com sua obrigação do seu cargo e resida nestas ilhas donde é capitão…Também pedem a Vossa Majestade porquanto nesta ilha do Pico há muitas criações de gado e há muitos homens vadios que não querem trabalhar e vivem puramente de pilhar e roubar pelos matos os gados, e para esse efeito se vão a fazer casas de palha pelos matos e lá vivem, para mais a seu salvo furtarem e não serem vistos o que é causa de grande destruição dos gados e das almas sem lhe poderem valer pelo que se, se não atalhar, em poucos tempos se perderá tudo, o que é em grande prejuízo de Vossa Fazenda e do comum e dos soldados que Vossa Majestade tem na Ilha Terceira, por se sustentarem dos gados que vão desta ilha o mais do tempo, haja por bem que o capitão dela ou seu ouvidor com os oficiais da câmara com os homens da governança, tomando informação dos que isto fazem e mais outra ordem de Juízo os desterrem por certo tempo fora da ilha até serem emendados ou que lhe mandem que venham a morar dentro na vila porque desta maneira terão donde trabalhar por seu jornal.

Pedimos mais a Vossa Majestade haja por seu serviço que as devassas que se tiram cada ano e compram trigo para tornar a vender, e dos que casam com redes e passam gados, burel e almácega e outras coisas que a lei manda que se soem a tirar, se não tirem por a ilha ser tão pobre e não poderem os homens viver doutra maneira, o que é grande opressão para o povo.

Mais pedimos a Vossa Majestade nos faça mercê de haver por bem que os Almotacés que em esta câmara sirvam três meses assim como tem concedido à Ilha Terceira e à Ilha do Faial que é tudo uma capitania”- (Investigação de João Luis Francisco, na Torre do Tombo)

Filipe I de Portugal, II de Espanha, foi senhor de um dos maiores impérios que o mundo alguma vez conheceu. Filho de Carlos V e de Isabel de Portugal, assumiu o trono português em 1580, nas Cortes de Tomar, com a promessa de respeitar as tradições e autonomia do país.

Na carta dirigida ao monarca nota-se algumas situações que se prolongaram no tempo:

-. Os titulares de cargos públicos em comissão de serviço na Capital ou outras Localidades

-. O Comércio de candonga!

-. O Privilégio das capitais de distrito…?

- O Picaroto sabe sempre quando lhe atiram terra para os olhos, só que, pacifico como é, não gosta de criar conflitos!

Com a Revolução Liberal, a Ilha do Pico passou a ter uma das oito comarcas existentes nos Açores, com a designação de comarca da Ilha do Pico e em 1841 passou a denominar-se comarca do Pico. Em 1855, tinha cabeça de círculo de jurados na Vila de S. Roque, que era cabeça de comarca e compreendia três julgados: Um na Vila das Lajes, outro na Vila de Madalena e na Vila de S. Roque.

Por Decreto de 6 de Agosto de 1896, passou a denominar-se comarca da Ilha do Pico, com sete distritos de juízes de paz: Lajes, Madalena, Piedade, Prainha, Santo António, S. Mateus e S. Roque.

Depois de passar por várias vicissitudes, actualmente com a designação de Tribunal da Comarca da Ilha do Pico com sede em S. Roque do Pico, tem um juiz e um do procurador.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

EMIGRANTE PICAROTA ATINGE 109 ANOS EM TERRAS DA CALIFORNIA

Por Francisco Medeiros
Chama-se Júlia Espírito Santo Machado da Rosa, completou no passado dia 27 de Janeiro 109 anos de idade.


Nascida no Lugar do Campo Raso da freguesia da Candelária Concelho da Madalena Ilha do Pico – Açores, é possivelmente a mais idosa Portuguesa, hoje viva, imigrante nos Estados Unidos da América do Norte e talvez em todo o Mundo.


Júlia do Espírito Santo, emigrou, com a idade de 20 anos, acompanhada de um tio, António Machado irmão do pai já imigrante naquele estado, tendo embarcado no navio “Britania” no Porto de Horta em 25 de Setembro de 1922 directamente para os Estados Unidos.


Júlia do Espírito Santo, casou na Califórnia com José da Rosa, natural do mesmo lugar e freguesia também emigrado para a Califórnia que faleceu em 1973 com 78 anos de idade. Carpinteiro de profissão dedicava-se à construção de habitações em madeira, tendo ele próprio construído a casa onde a esposa reside actualmente com uma neta. Do casal nasceram um rapaz já falecido e uma rapariga que ainda se encontra viva.


Júlia do Espírito Santo Machado da Rosa, trabalha todo o dia, dedica-se à confecção de colchas em lã que vende. É completamente autónoma na sua higiene pessoal. Tem um hábito que é beber durante o dia 3 ou 4 chávenas de café descafeinado que acompanha com uma bebida alcoólica.


Era filha Felicidade do Espírito Santo, falecida em 1963 com 90 anos de idade e de Manuel Rodrigues Machado, falecido em 1937, com 88 anos de idade, casados em 23 de Janeiro de 1896.


Júlia do Espírito Santo Machado da Rosa, tinha mais cinco irmãos e duas irmãs, já todos falecidos, tendo naquela freguesia muitos sobrinhos.


A freguesia da Candelária foi uma das freguesias do Pico onde a população mais recorreu à emigração, para todas as partes do Mundo.


Segundo uma nota de José Carlos Costa no seu livro “A Viagem do Basalto” (2007), entre 1859 a 1979 emigraram daquela freguesia 866 Homens e 784 Mulheres, sem contar com aqueles que emigraram clandestinamente nas baleeiras, duas vezes a população residente naquela freguesia em 2006.


Desde o inicio do povoamento das Ilhas e na Ilha do Pico em especial, pela natureza dos solos agravada pela existência dos “mistérios”saídos dos vulcões, o crescente aumento da população residente nos núcleos habitacionais, movimentava-se à procura de melhores locais onde os solos eram propícios a extracção dos bens da terra. A Freguesia da candelária era uma das mais pobres em solos.


A Gente do Pico sempre viveu da agricultura e da pesca com todas as consequências e carência de bens essenciais à sua sobrevivência.


A Falta de caminhos de comunicação obrigava as populações a deslocarem-se na mesma Ilha por mar em embarcações de pesca, a remos e à vela, que simultaneamente eram utilizadas, para o transportes de pessoas e bens.


Era através destes contactos populacionais, efectuados com tempo de feição e nos meses de Verão, que se foram desenvolvendo os lugares e nestes, com aumento da população, foram surgindo as freguesias.


Com decorrer dos anos, a abertura de caminhos e estradas e a evolução dos meios de transportes para o exterior, a vida social e económica dos Açorianos, foi-se modificando, e a expansão de umas ilhas para outras, foi melhorando as condições de sobrevivência das populações.


A apetência da emigração Açoriana para fora do Arquipélago caracterizou-se histórica e instintivamente, com as deslocações frequentes das populações de umas Ilhas para outras. O início da emigração remonta ao século XVII, tendo como destinos: O Sul do Brasil, a emigração de casais, 50 famílias constituídas por 219 pessoas que embarcaram, no dia 29 de Março de 1677, no barco “Jesus Maria e José” na Horta, Ilha de Faial.


Em 1847, saíram do Arquipélago cerca de seis mil pessoas para São Paulo e Rio de Janeiro.


Mas só em meados do século XIX princípios do século XX é que se deu a maior abundância de emigração para os Estados Unidos que se prolongou até aos nossos dias.


O Canadá foi o último destino de emigração de açorianos, com relevância para os residentes nas Ilhas do Faial e do Pico, após o Vulcão dos Capelinhos em 1957, com a assinatura de acordos entre Portugal e o Canadá. Apesar de esta ser uma emigração muito recente, o número de açorianos que emigraram foi elevado.


Verificamos que entre l960 e o Ano 2000, terão emigrado de todo o Arquipélago do Açores, 81.470 pessoas e para o Estado Unidos e 77.597 para o Canadá, perfazendo um total de 159.067 pessoas.


As Bermudas, o Hawaii e a França na Europa, foram outros destinos de emigrantes deste arquipélago onde as condições de trabalho eram favoráveis, mas não tiveram grande expressão, por diversos condicionalismos.


De qualquer das maneiras há Açorianos em toda a parta do Mundo, podemos constata-lo pelo diário de bordo do “Hemingway”, escrito por Genuíno Madruga na sua 2ª viagem à volta do Mundo.


S. Roque do Pico


Fevereiro de 2011


xatinha@sapo.pt






quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Conto de Natal

Um Homem estranho num Jantar dos sem abrigo
Por Francisco Medeiros

Um dia destes que antecedem o Natal, encontrei um homem estranho num jantar de confraternização dos sem abrigo, disseminados por esse mundo.

Estava triste. O seu aspecto envelhecido era demonstrativo, de um ser que ao longo dos séculos, tinha sido oprimido por civilizações.

Contou-me ele que toda a sua vida tinha sido governado e explorado por monarcas e doutores da lei, por grupos e classes privilegiadas, para quem trabalhou toda a vida e não distribuíam com justiça um pouco do que ele próprio produziu, para viver com dignidade.

Nascido, de uma família humilde, vivia feliz com os avós, a mãe o pai e os irmãos e assim foi crescendo na harmonia do lar sem sobressaltos, onde era posto em comum os seus afazeres, a sua vivência sem atropelos, na fraternidade, na solidariedade, na dignidade, na confiança, no respeito mútuo, sem medos, nos direitos e deveres de cada um, para com o seu semelhante em sociedade.

Ao atingir a maioridade, foi alistado para cumprir o dever de defender a pátria. Para servir nas forças armadas recebeu um número, foi doutrinado com palavras que apelavam à sua bravura, proibido de dar opiniões e pensar com a própria cabeça e treinado para matar.

Com a mão armada, lançou bombas em todo o mundo, assassinando pessoas inocentes. Nunca foi esclarecido com transparência porque o fazia.

Ocupou territórios, que sabia não serem a sua Pátria. Muito mais tarde começou a olhar para o seu percurso de vida e descobriu que tinha sido enganado, traído.

Depois de percorrer vários mundos envolvido em guerras, envelhecido prematuramente por ferimentos no corpo e da alma, achou que devia regressar ao lar que o viu nascer.

Tinham-se passados séculos, quando chegou à aldeia onde tinha nascido, não encontrou a família. No local onde julgou existir a sua casa encontrava-se um enorme edifício de apartamentos. Encontrou alguns velhos como ele, sentados num banco de jardim, pareceram-lhe tristes, não os conhecia, e jovens não encontrara nenhum.

Contou-lhes que tinha nascido naquela localidade e apontou apara o grade edifício à sua frente, perguntou-lhes pelos familiares, mas todos responderam não os conhecer.

Um dos que ali estavam, o mais idoso a julgar pelo seu aspecto, disse que conhecia a história de uma família que ali residia habitavam uma casa com um grande quintal à volta, onde criavam diversos animais e extraiam da terra o necessário para sua subsistência e o remanescente era vendido no marcado. Viviam felizes nada lhes faltava até que um dia foram obrigados a abandona-la por ordem das autoridades.

A Empresa proprietária do edifício de apartamentos que lhe comprara a casa e o terreno circundante, vendeu-lhes um apartamento 70 vezes 7 mais caro, para isso tiveram de recorrer ao banco para pagar o apartamento em prestações.

O Casal teve que arranjar trabalho numa fábrica e para se deslocarem para o trabalho, o banco os tinha aliciado para comprarem um automóvel, mobiliário e electrodomésticos para o apartamento.

O casal teve que colocar os pais num lar de idosos e os filhos num infantário e assim viveram vários anos.

Um dia o casal chegou à fábrica onde trabalhavam há vários anos e verificaram um grande aglomerado de pessoas junto à entrada. Tinham sido despedidos. Não protestaram.

Voltaram para casa, verificaram que o dinheiro que tinha dado ao banco, já era mais que o suficiente para pagarem as prestações do apartamento. Pegaram nos filhos desapareceram de um dia para o outro.

Depois disso começaram a aparecer nas redondezas durante muitos dias uns senhores de colarinho branco e gravata à procura deles, indagavam junto das pessoas e dos vizinhos dos apartamentos, o seu paradeiro, alguma coisa que os pudessem localizar. Falavam em crédito mal parado!

Nunca mais souberam deles, apesar de haver várias suposições se tinham emigrado ou refugiado algures, mas diziam ser mais certo a primeira hipótese.

Um dia os homens vão viver sem medos, com o indispensável à sua subsistência. Haverá mais justiça social! Deixarão de cheirar a pólvora !

Dia Mundial da Paz

Vila de S. Roque do Pico.

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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

NAUFRÁGIO DA BARCA CAROLINE EM 1901

Autor: Francisco Medeiros
O Jornal Ilha Maior de 15 de Outubro do corrente ano, notícia o avistamento de destroços da barca “Caroline”, no sítio da Meia Broa, nos baixios entre a Ponta do Areeiro e a pedra do comprido próximo da Ponta da Areia Larga, na Ilha do Pico Arquipélago doa Açores.

Esta notícia recordou-me uma conversa que tive com Amílcar Quaresma (1) já há alguns anos. Disse-lhe na altura que tinha na minha posse uma pequena tigela, em porcelana, que meu avô tinha recolhido da barca Caroline.

Ele pediu-me que lhe arranjasse uma foto da mesma, pois era sua vontade fotografar e recolher todos os salvados que existissem, para fazer parte de um hipotético museu ligado às coisas do mar - Museu do Mar, a instalar no Concelho da Madalena. A ideia foi-se com ele…?

Uma outra peça que julgo de algum valor e que encontrei na casa onde viveu meu Avô e mais tarde meu tio Alberto, foi uma tela onde estava desenhada a barca Caroline. Não sei como lhe foi parar às mãos, devia estar na camarinha do Capitão da barca e assim sendo, é possível que lhe tivesse sido oferecida pelo socorro aos sobreviventes. Na altura meu avô apreciaria mais uns cabos para o barco de que uma tela!


Foto histórica da Caroline encalhada na Meia Broa
 Meu avô, os irmãos e os primos, conhecidos pelos Chatinhas da Areia Larga, foram daqueles que, entre outros, com as suas embarcações ajudaram a salvar os 36 tripulantes da barca Carolina, naquela fatídica noite de 3 de Setembro de 1901.

Este naufrágio deu origem a que se iniciasse a construção do Farolim da Areia Larga, que entrou em funcionamento em 1905. Durante 74 longos anos aquele farolim manteve-se aceso, acabando por ser desactivado apenas em 1979, após a construção do farolim da cabeça do molhe de abrigo ao Porto da Madalena. Dado o actual estado de conservação, é uma boa altura para se pensar em preservar, pelo menos a base daquele farolim, que está associado e é um marco histórico daquele naufrágio.


Há dois anos, por ocasião das Festas Maiores do Concelho da Madalena, vi uma exposição de fotografias antigas de homens e barcos, relacionadas com a actividade marítima no canal e de toda a fronteira. Pudemos constatar o grande interesse que a mesma suscitou entre os visitantes.

Será que poderíamos ter uma sala com uma exposição fotográfica permanente como aquela, mas complementada com palamenta dos barcos e das lanchas do Pico, da pesca Industrial e artesanal e de todos aqueles que por esses mares dentro procuraram o seu sustento? E porque não um espaço onde se projectasse toda essa actividade em movimento? Será que ainda vamos a tempo?

O turista que vem de avião pela capital do distrito, quando nos visitam para conhecer a Ilha, dariam um pequeno passeio ao centro da Vila da Madalena, para desentorpecer as pernas da viagem do canal e, em poucos minutos, pela imagem podiam ver e fazer uma ideia do que foi a vivência dos que nos antecederam e a sua forma de ser.


Tigela da Barca Caroline

O Museu das Flores conseguiu recolher muitas peças do navio de passageiros “Slavonia”, que encalhou na baixa rasa da costa do Lajedo, com 597 pessoas a bordo, 225 tripulante e 372 passageiros, às primeiras horas do dia 10 de Junho de 1909. A torre do farol das Lajes das Flores, já construído, que dominaria aquela zona, na altura ainda não tinha montada a lanterna para entrar em funcionamento. Esta lanterna só chegou aos Açores uma semana depois do naufrágio, trazida pelo então capitão-de-mar-guerra Schult Xavier, nome que, mais tarde, foi dado ao navio de balizagem ao serviço de faróis.

O Naufrágio da barca Caroline deveu-se a erro de aproximação, julgando o Capitão estar a aproximar-se da Ilha do Faial, cujo farol da Ponta dos Capelinhos, em construção, só viria a estar activo em 1 de Agosto de 1903. No tempo, o partido da oposição ao governo atribuía aquele desastre ao desleixo no atraso da colocação da lanterna no farol. A instalação de faróis e farolins no Arquipélago do Açores não acompanhou a evolução e o aumento de navios de pesca, de carga e de passageiros, nas rotas dos Açores e entre o Ocidente e o Oriente.

A crise económica e de governabilidade, até à Republica em 1910, terá concorrido para esse atraso. Há um século como hoje!

Amílcar Quaresma deixou uma obra que hoje é uma preciosidade para consulta obrigatória para quantos continuam a gostar de saber das coisas do mar e da memória da nossa cultura. Cultura de um povo que se fixou numa zona difícil de sobreviver, que construiu os maiores monumentos da Ilha, os maroiços, para arrotear pequenas belgas onde pudesse colher o mínimo indispensável à sua sobrevivência. Gente que tinha no mar e no canal a sua Terra.
(1) Amílcar Quaresma –Filho de João Quaresma que foi gerente das Lanchas do Pico.
Francisco Medeiros

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O PICO CHEIO DE GENTE POR TODOS OS LADOS Verão de 2010


Autor:Francisco Medeiros
Com as festas de Verão o Pico enche-se de gente por todos os lados. Eles vêm dos quatro cantos do mundo, para rever parentes e amigos, trazendo consigo as malas cheias de saudades.
Muitos vêm pagar promessas, sabe Deus em que circunstâncias foram prometidas, a Santa Maria Madalena, ao Bom Jesus e à Senhora de Lurdes. Muitos dos que emigraram, especialmente os que com numerosa prole e agregados familiares mais numerosos conseguiram dar aos filhos uma melhor forma de vida mas foram enraizando, o tempo passando e a sua origem foi-se esfumando e nunca mais voltaram. Houve mesmo muitos que perderam a sua identidade. O Canadá e os Estados Unidos estão tão evoluídos que as pessoas quando lá chegam mudam de nome, tornam-se desconhecidos, adquirem nomes que não nos dizem nada.
Tenho tido contactos com alguns que já não têm parentes próximos por cá e a sua descendência já vai na terceira geração. Por isso, já não vêm porque os laços que os unem por lá são difíceis de cobrar. Se fosse ali ao lado, ou na ilha em frente, é possível que os visse-mos por cá mais amiúde.
Depois, há os fretes caríssimos, as arrelias de voos atrasados e um sem número de dificuldades e a falta de informação.
Há os de outros mundos, que vêm por aí abaixo, pela curiosidade, de variar os itinerários de férias, depois de um ano de trabalho afogado, nas grandes cidades, pela poluição, que teima em aumentar e sufocar aqueles que teimosamente tentam resistir. E, coisa curiosa, grande parte deles, talvez centenas, aproveitam os barcos de ver baleias e golfinhos e vão para o meio do mar em volta destas ilhas, onde as águas límpidas e a poluição não existe mesmo, como que a fugir duma chaga que já não retorna.
Não só o Pico mas todas as Ilhas do Arquipélago, há períodos, em que se sentem as quatro estações num só dia. É uma característica muito peculiar nestas Ilhas, cujos fenómenos climatéricos vêm sempre de Oeste para Leste com uma precisão quase matemática e isto durante o Inverno porque no Verão, embora a montanha se cubra de nuvens, ou com os seus característicos chapéus, nunca vem o que mostra.
No Inverno sim! O Pico o que nos mostra vem de certeza e a Nuvem da Prainha não engana ninguém.
Mesmo assim, no Outono e Inverno nos últimos anos, têm vindo ao Pico muitas excursões, dos estrangeiros e do continente Português, de grupos etários mais avançados, que por aqui vêm e têm tido a sorte de apanhar quadras de bom tempo e podem apreciar as Ilhas e a Montanha.
Vila de S. Roque do Pico
Agosto de 2010