Crônicas, contos e narrativas do passado, de gente que vive na ilha do Pico, ou estão espalhadas pelo mundo e tem muitas estórias para contar. Mande seu conto.

terça-feira, 30 de março de 2010

Um emigrante do Pico

Autor: Francisco Medeiros
O Pico amanheceu descoberto, algumas nuvens dispersas, aqui e além, de vez em quando passam-lhe na frente, mas logo volta a aparecer na sua plenitude. E é lindo este Pico, com algumas manchas de tons verdes e pedra, realçadas pelo Sol, que vai subindo no horizonte para os lados do Topo em São Jorge, pondo no mar reflexos de , para além da cidade, avista-se nitidamente o casario disperso por entre tons verdes coroados pela sua Caldeira.
No canal, para os lados do Calhau, Areia Larga e Madalena, avistam-se as velas brancas dos Barcos do Pico, que se vão afastando da costa em, demanda do porto da Horta. Vão carregados de lenha, vinhos e frutas.
Um rasto de espuma branca vai formando uma esteira, no entre o Pico e o Faial, denuncia a primeira lancha dos Lourenços, a lancha da fruta, a caminho do Porto da Madalena.
Próximo da costa Norte do Pico, à saída do canal Pico/ S. Jorge, um grande navio, todo branco, navega para o Ocidente. Vai-se aproximado rapidamente da costa Norte do Faial, para os lados da do farol da Ribeirinha.
Estamos no mês de Julho, as labutas daqueles que trabalham a terra são muitas.
Tudo se conjuga para mais um dia de trabalho de Sol a Sol nas vinhas ou nas culturas. Os que tem vacas nas “criações” vem da ordenha de “canecas” às costas, cheias de leite, para alimentação ou fabrico do queijo caseiro. Para estes, o dia começou ainda antes do Sol nascer. Percorrem os caminhos dos matos riscados com os trilhos do carros de bois.
No cabeço de cima, o António, com uma “vimadeira” numa mão e uma luva de pele de porco na outra, vai mondando o silvado entre as pedras da vinha, o suor a escorrer-lhe por baixo do chapéu de palha. Levanta-se, limpa o suor que lhe tapa os olhos com um trapo, espécie de lenço, feito de uma camisa velha. O olhar espraia-se por toda esta paisagem, mas os seu olhos fixam-se exclusivamente naquele navio todo branco, que se vai perdendo no horizonte a caminho da América.
Levantara-se de madrugada. Sempre os mesmos trabalhos, repetitivos e divididos ao longo do ano, conforme a época das sementeiras e das colheitas, complementados com uns dias que dá p’ra fora em troca com os vizinhos.
De uma família com mais cinco irmãos, três rapazes e duas raparigas, todos ajudam nos trabalhos da lavoura, no amanho das terras, com excepção de um dos irmãos, que por deficiência de um pé, dedica-se à profissão de sapateiro.
O dinheiro que entra naquela casa é para satisfazer o mínimo das necessidades indispensáveis: É o boi que se exporta todos os anos, algum dia dado p’ra fora pago a dinheiro por algum agricultor mais abastado, o vinho e a lenha vendidos para o Faial aos fregueses apalavrados.
O António sonha com uma vida melhor. Aquele navio todo branco associa-o às conversas de quase todos os dias, que ouve na casa de ensaio da música, ou no botequim do José Nunes, onde à noite se desloca para saber de algumas novidade ou discutir as colheitas que se fazem, os preços do leite ou do gado, acompanhados de um jogo de “Sueca”.
É assim a rotina de quase todos os dias.
A América não lhe sai do pensamento, as histórias que ouve, as sacas de roupa que os vizinhos recebem, vindas da América, de parentes emigrados, alguns de “salto” nas Baleeiras. Todos os dias, estas histórias martelam-lhe a cabeça.
Há dias, ao falar com um vizinho, que também vai emigrar, ouviu falar sobre os navios da “Fabre Line”, que fazem escala na Ilha do Faial para Providence, de que é agente José Furtado Cardoso, este trata de todos os documentos, incluindo passagens em caminho-de-ferro para a Califórnia. Quase todos os dias comenta-se que um ou outro conhecido está a tratar de documentos para emigrar, com cartas de chamada de familiares. A América é o sonho de uma vida melhor, para muitos jovens da Ilha.
Um dia ao chegar a casa disse ao pai que queria emigrar, mas para isso teriam que pedir dinheiro emprestado, ou vender um dos bois que estavam no mato. Naquela noite ninguém dormiu naquela casa, só a pensar que o António os ia deixar por muitos anos. Foi como se tivesse morrido um familiar. A mãe andava de lagrimas nos olhos pelos cantos da casa, sem que ninguém a visse. Era um dos seus filhos que os ia deixar.
Nos dias seguintes começaram os preparativos, colher informações mais precisas sobre passagens e o recurso a um vizinho mais abastado para emprestar o dinheiro. Parecia que aquela casa tinha levado uma volta.
E chegou o dia, uma manhã de Primavera. Com uma mala de madeira, três mudas de roupa, calçado com umas botas novas feitas pelo irmão sapateiro, lá seguiu para o Faial no barco “Adamastor”, acompanha-o um vizinho, com quem já vinha falando há muito e que agora também partia. Embarcou nas vésperas das Festas do Espirito Santo, junto com outros dois rapazes do Pico, rumo à América.
O António à poupa do navio, à saída do Cais, olhava para o Pico, a freguesia e a Igreja de Santa Maria Madalena por entre os Ilhéus, invadido já pelas saudades, uma lágrima rebelde corria-lhe pela cara. Veio-lhe à memória todo o tempo passado na Ilha, revendo o passado, mas também a esperança de melhores dias para o futuro iam-lhe reconfortando a alma.
- Um dia, quando eu voltar, vou acompanhar Santa Maria Madalena na procissão, descalço, em todo o percurso.
- Se chegar a juntar algum dinheiro, vou lavar a Coroa do Senhor Espirito Santo e convidar para a minha mesa todos os pobres nossos vizinhos e amigos.
À medida que o navio se afastava, a Ilha ia-se tornando mais pequena, por momentos pensou que se estivesse no Pico já não embarcava, mas a decisão estava tomada e o navio já não voltava p’ra trás.
Já noite alta, deixou de avistar o farol dos Capelinhos na Ilha do Faial. Foi à procura do camarote, que o acolheu até à sua chegada a terras da América.
Email do autor: Francisco Medeiros

diHITT - Notícias

segunda-feira, 1 de março de 2010

Eu sacristão.


Autor: David Avelar
Na década de sessenta do século passado com 10 anos de idade, por influência do padre Rodrigues, comecei a ajudar à missa, na igreja São Pedro Alcântara. Desde a época de catecismo que eu tinha verdadeira adoração pelos rituais da igreja. Os odores, os cânticos, o eco proveniente deles, os paramentos, tudo me atraía. Com facilidade aprendi os rituais litúrgicos. Responder à missa em latim, para mim, criança, era como falar a língua de Deus. Todos os dias, às seis da manhã, ou à noite às seis horas, ou às novenas, ao anoitecer o ângelus, acompanhava a perpétua, fazendo o trajeto da casa de meu avô, à igreja passando por minha escola, pelo hospital descendo a ladeira, desemboca no adro do majestoso edifício do Convento Franciscano, com a sua majestosa igreja anexa. Ali, na fria sacristia, preparava-me para abotoar umas três dezenas de botões, que compunham a minha batina sacristão. Depois preparava a água e o vinho, que iriam fazer parte da eucaristia. Em seguida me dirigia ao altar-mor, onde acendia as velas. Em dias de festa, a sala à direita, se transformava numa imensa floricultura, onde a Maria Fernandina, preparava com carinho, os arranjos de flores que iriam decorar os altares. Essa sala, dava para um pequeno cemitério clerical. A essas horas, o padre Rodrigues já se encontrava também nos preparativos para a a celebração da missa. Eu caminhava para a torre para tocar os sinos, com o toque das missas vespertinas. Haviam diversos dobrados, um para cada cerimônia. Casamentos, batizados, funerais, ângelus. Vinte e cinco toques de sino.
Em 1992, quando retornei a minha terra, com minha esposa, visitei a igreja com a avó Matilde e encontrei uma velha amiga de infância, Dolores Xareta. Quando voltei em 2004, vi que o altar da direita já tinha sido reformado, mas que a igreja ainda continuava no mesmo estado de abandono. O Convento na verdade fazia parte de um complexo, que por muitos anos foram instalados a Câmara, o Tribunal da Comarca da Ilha do Pico, as repartições de Finanças, a tesouraria da Fazenda Pública e a Conservatória do Registro civil e predial. Há que se fazer aqui, uma observação. No lugar chamado Cais do Pico, para mim um dos mais lindos da ilha do Pico, lugar onde nasci, é que se situam, até hoje, todos órgãos administrativos, do Concelho da Freguesia. Na verdade, São Roque é uma vila a mais ou menos uns 5 kms de distância. Ali situa-se a sede paroquial da freguesia. Um dos mais iminentes párocos, foi o padre Soares, do qual eu tinha muito medo. O padre Rodrigues, era uma pessoa muito especial, gostava de tomar seu vinho, fumar seu cigarrito. Sua marca favorita era gauleses, um cigarro francês, muito forte. Costumava sentar na varanda da casa de minha mãe alugada à paróquia, e ficar vendo-me brincar no quintal. Muitas vezes, ante a minha curiosidade sobre assuntos bíblicos, respondia de uma forma didática e de fácil entendimento, o que me levou a amar história e por conseguinte a Bíblia. Já no Brasil, soube que veio para cá, como missionário, morando em Santos-SP. Anos depois, faleceu de malária no Centro-Oeste do Brasil. Foi com imensa alegria e emoção que ao retornar em 2004, pude observar que a fotografia dele, se encontrava na entrada da sacristia, como uma homenagem póstuma, àquele que sem dúvida nenhuma, foi o melhor padre da nossa igreja.
Uma vez para sair da rotina enfadonha das manhãs das missas vespertinas em vez de colocar água e vinho, nas galhetas, para eucaristia coloquei água e água. No meio da consagração ao perceber a brincadeira, fitou-me com olhar maroto. No edifico do Convento no Inverno, funcionava o cinema-teatro, num salão do rés-do-chão e a cadeia da Comarca, que de vez em quando abrigava incauto, preso na maioria das vezes por ter tomado um copo a mais.
Mas uma das minhas grandes aventuras da igreja, foi quando perto da Semana Santa, ao retirar os panos para cobrir as estátuas e as janelas descobri atrás do altar-mor, uma porta que dava para uma caverna. Atrevi-me a descer os degraus de pedra, mas ao ver o primeiro esboço de uma caveira, voltei correndo e fui contar para padre Rodrigues. Ele com cenho franzido ralhou comigo e me pediu para esquecer o que eu tinha visto. Anos depois conversando com o meu avô, ele me contou que, provavelmente, o que eu tinha descoberto era real, pois numa só noite, 3 de Setembro de 1759, quando o Marquês de Pombal expulsou jesuítas, os monges que ali viviam sumiram, provavelmente tendo acesso ao mar por essa caverna. Em 1992 conversei o meu primo Norberto Medeiros que vivia da pesca lagostas e cavacos, de mergulho e que também confirmou que já tinha tido acesso a essa caverna, na maré baixa. Se é verdade ou não, isso ficou na minha memória de criança, como um fato inusitado. Outra lenda e essa sim, é uma lenda, é que os monges tinham um tesouro guardado num dos pilares das escadas de acesso, ao segundo andar do monastério, onde havia realmente um bojo da sua base, mas se alguém tentasse quebrar aquele pilar, toda a arcada de pedra de acesso ao claustro, ruiria. No centro do adro, ainda se encontra a cruz de pedra, onde tantas vezes eu brinquei. Eu roubava as hóstias e celebrava missas de mentirinha, ali em frente àquela cruz. Espero ainda ver um dia a minha igreja. O mais engraçado, é que mesmo com toda a riqueza de ouro, prata, marfim e ícones religiosos, a igreja estava sempre aberta. Os trabalhos de entalhe em madeira de lei brasileira, feitos a canivete segundo consta, destacando-se principalmente as gavetas da sacristia onde se guardavam os paramentos. O Ostensório e o Turíbulo de prata, a magnífica Cruz Processional. Recordo-me da preocupação em manter a lamparina vermelha, situada ao centro da nave principal em frente o altar-mor, sempre acesa. Uma bóia de cortiça flutuando sobre azeite, fazia com que o pavio se mantivesse à distância certa do azeite e queimasse eternamente. Este conto também é uma homenagem póstuma, àquele que foi meu mentor espiritual. Padre Rodrigues. Tal foi sua influência, que vim para o Brasil aos 13 anos, com a intenção de seguir a carreira eclesiástica. Ainda freqüentei o Seminário São Vicente de Paula, em Petrópolis. Mas ao ver o sincretismo religioso e as lindas mulheres deste país, cheguei à conclusão que, certamente, seria um péssimo padre. Aqui constituí uma família linda. Hoje tenho uma amada esposa, com quem vivo há 33 anos, sou pai de duas filhas maravilhosas e tenho uma neta que é minha princesa. Dádivas de Deus.
Email do autor:



diHITT - Notícias

domingo, 28 de fevereiro de 2010

EXPORTAÇÃO DE AZEITE DE BALEIA E A TÁBUA QUE VOOU!


Autor: Francisco Medeiros
A caça à baleia nos Açores começou na segunda metade do século XVIII, sob a influência das baleeiras inglesas e americanas, que demandavam as baías e os portos das Ilhas dos Açores, para se abrigarem, abastecer-se da víveres ou descanso das tripulações.
O capitão geral dos Açores, em 1768, informou o governo da presença no arquipélago de 200 embarcações (Botes Baleeiros) que teriam obtido 800 contos em azeite de cachalote espermacete e algum âmbar.
Em 1760, na Nova Inglaterra, as baleeiros não conseguiam fornecer às fábricas esperma
cete suficiente para satisfazer a procura, e o preço do azeite de baleia elevou-se, pela primeira vez em 1864. Os preços subiram acima dos100 dólares por barril.
Esta importância era aliciante, o que levou os homens do mar a organizarem-se em armações em alguns portos Açoreanos, onde era mais frequente a passagem dos cardumes de cachalotes.
Uma Lei Régia de D. Luís, datada de 26 de Maio de 1862, finalmente veio incentivar a caça à baleia, isentando de impostos e imposições marítimas durante 10 anos aquele actividade em portos nacionais.
A Caça à baleia teve grande relevo na economia das populações de algumas ilhas, que a ela se dedicavam, bem como no comércio das localidades onde se situavam as estações baleeiras. O Inquérito I
ndustrial da Pesca, datado de 1889, dava conta da sua existência no Arquipélago dos Açores de inúmeros baleeiros.
No inicio o azeite de baleia era produzido em grandes caldeiros a lume directo, nos portos onde se situavam as estações baleeiras .
Nos anos quarenta e cinquenta do século XX foram construídas fábricas apetrechadas com autoclaves, que além da extracção de óleo de melhor qualidade (menor grau de acidez), faziam o aproveitamento quase total dos cachalotes, incluindo farinhas de carne e ossos e extracção de vitaminas dos fígados.
O azeite de baleia tinha muitas e variadas aplicações: Iluminação pública e particular, lubrificante de máquinas, industria farmacêutica, tintas, calafeto de embarcações, curtumes para calçado, indústria de sabões e outras. No pátio do Museu Anchieta, em São Paulo, no Brasil, h
á uma parede histórica de quase 500 anos, feita de barro e óleo de baleia pelo padre Afonso Brás.
Mais recentemente, óleo de baleia foi usado na exploração espacial. Descobriu-se que o óleo de espermacete não congela, mesmo em temperaturas muito baixas, reage bem a altas temperaturas e não se degrada facilmente, tornando-o num lubrificante ideal para equipamentos lançados ao espaço.
O condicionamento do óleo de baleia para exportação, a partir dos Açores, passou por três
fazes distintas: Inicialmente exportação em barris de madeira, depois em bibons de ferro e por último a granel em navios/tanque.
A primeira foi a mais difícil. Havia que contratar localmente tanoeiros para o fabrico de barris e não havia muitos.
Aqui no Cais do Pico fabricaram-se muitos barris destinados à exportação de azeite de baleia, outros eram adquiridos por essas ilhas fora.
Na Praceta dos baleeiros, ao lado de um poço de maré, onde funcionou a oficina das Armações Baleeiras Reunidas do Cais do Pico, havia uma moagem tocada por força motriz, à qual foi adicionado um volante, que por sua vez fazia mover uma serra circular para serrar madeira para fabrico de barris. Esta tarefa esteve, por algum tempo, a cargo de Manuel José da Silveira, mais conhecido por mestre Janeiro e um seu ajudante Gabriel Vieira Maciel, conhecido por
Gabriel da Ricardina, que também exerceu a caça à baleia na qualidade de maquinista.
Certo dia estavam a serrar madeira de incenso e mestre Janeiro, que gostava de fazer as suas experiências, disse ao Gabriel:
- Vamos serrar esta tábua de suta para pouparmos trabalho!
Mestre Janeiro dá-lhe uma pequena inclinação, mete a tábua na serra e esta atira a tábua até ao teto!
Ficaram a olhar um para o outro, como quem diz, se ela apanha um de nós, não sei o que seria!?
Mestre Janeiro que punha o seu brio em tudo o que fazia disse para o Gabriel:
- Ó Gabriel, isto não se diz a ninguém !
Não disse, mas soube-se !
Email do Autor
xatinha@sapo.pt


Comentários recebidos por email:


Data: 13/2/2010 11:35:45 - Roger Dias - Ontário - Canadá
Olá Senhor Goulart!
Sou Faialense ausente no Canadá há 43 anos. Adoro sempre ler artigos antigos e recentes do Faial, embora nao tenha muita experiência de escrever. Mas um dia destes irei partilhar algumas histórias, "para que o amigo Francisco Medeiros, as ponha em papel", pois quanto a este site, sinceramente, estou a gostar imenso, até me da vontade de imprimir tudo o que aqui está. Muito, muito obrigado, pela sua iniciativa.
Bem, haja e continue . (sic)
Cá de longe ADORAMOS
Roger Dias
Ontario
Canadá

diHITT - Notícias

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Amália Rodrigues visita o Pico.

A nossa querida Amália Rodrigues (1920-1999), visitou o Pico. Neste vídeo, ela está na Igreja de São Mateus. Queria agradeçer à Diana Zaidman, por nos proporcionar este momento, em que maior interprete do fado, vem à nossa terra. Tem muita literatura interessante sobre Amália na Net. Mas um site que chama atenção, por ser curto e objetivo, é o www.amalia.com .

diHITT - Notícias

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Homenagem à ilha-montanha, o nosso Pico.

Pois é, recebi mais fotos do nosso Pico cheio de neve. Com os dedos coçando, dei inicio à versão 2.0 da edição das fotos. Obrigado à minha sobrinha Paulinha e a outros amigos por fazer o up-grade de imagens.
Aumente o volume e clique na foto abaixo para assistir.


Imagens publicadas apenas para ilustração cultural, sem fins lucrativos.
**********************************************************************************
Comentários recebidos por email:
19/2/2010 23:56:14 - de John L. Moniz.
Obrigado Sr. Goulart pelo seu site. É muito bonito de ver. Eu sou açoriano, nascido em S.Miguel. Estou radicado aqui nos Estados Unidos da América, há 36 anos, e so fui uma vez aos Açores em 1979, mas é sempre bom recordar a nossa terra. São nove ilhas encantadas.
Subescrevo-me.
John L. Moniz
diHITT - Notícias

Fernando Pessoa.



Conversando com o Primo Francisco, ele me lembrou Fernando Pessoa. Poeta maior da nossa língua, Pessoa era um enigma com seus heterónimos. Mas quem quer saber porque ele escrevia como Ricardo Reis, ou como Álvaro de Campos, ou Alberto Caieiro. A poesia que nos toca fundo o coração é esta:


MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa

diHITT - Notícias

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Publicação de artigos.

Os leitores estão perguntando se podem publicar seus contos, suas estórias.
Fiquem à vontade!
Para isso, mandem seus contos e uma foto pessoal.

Fotos inerentes à narrativa serão indexadas.
Email para postagem:
David Avelar

davidavelargoulart@gmail.com


diHITT - Notícias

A estação baleeira dos Capelinhos na ilha do Faial.






Autor: Francisco Medeiros



O Porto Baleeiro do Comprido, na parte Oeste da Ilha do Faial foi a maior estação baleeira e a mais produtiva na caça à baleia do Arquipélago dos Açores.
Até ao ano 1957, durante a Campanha de Verão, os baleeiros alojavam-se em casas construídas em pedra cobertas de palha de trigo a que chamavam palhotas. Na rampa do porto varavam cerca de 20 botes baleeiros, pequenas embarcações de pesca e na sua pequena baia ancoravam 7 lanchas baleeiras a motor.
Parte destas embarcações, pertenciam às Armações baleeiras Reunidas, do Cais do Pico, Ilha do Pico, que por falta de baleias no Canal Pico/S. Jorge , baleavam de parceria com as Armações do Faial que também para ali se deslocavam.
Para se fazer uma ideia em 1945 os botes daquela estação caçaram 67 baleias, que produziram 180 toneladas de óleo, vendidos a 4$00 o quilo.
Por aquela estação baleeira, passaram os mais afamados, oficiais, trancadores e mestres baleeiros do Pico e do Faial.
Para mencionar alguns. recordo-me de José Brum, mais conhecido por José Batata que baleou no Capelo 22 anos, o irmão deste, Francisco Brum de Simas, o Pé Leve, nascidos na Ribeira do Meio; os filhos deste o João Pé Leve que foi mestre da lancha Garota e o Alberto Pé leve.
Do Cais do Pico O António Joaquim Madruga pai e filho, Os irmãos, António e Manuel Fula, este com 6 filhos todos baleeiros; dos quais o José Fula, também oficial, fez a proeza de caçar 4 baleias num só dia, o Manuel Fula que foi mestre de lancha baleeira ; Os mestres José Caneca e os filhos João que foi maquinista e o José também oficial baleeiro; O Manuel Peixe Rei ; Os Januários, oficiais e trancadores estes também proprietários de armação baleeira; Os Cristianos, mestres e maquinistas ; Os Aldeias, com destaque para o Tomé Carapinha que foi trancador, oficial e mestre de lancha.Os Bispos, O João que foi mestre de lancha, o Edmundo maquinista , o António que foi o último trancador do Cais do Pico, e o José remador.
Do Faial os Serpas da freguesia das Angústias, João Serpa, pai e os filhos Mário e Jaime Serpa, este também com descendência de baleeiros tinham o alcunha de Cabritos, de onde saíram um mestre de lancha e trancadores; O Mestre Manuel Santa Barbara, oficial baleeiro de que foi seu trancador um dos grandes baleeiros do Faial, o José de Jesus conhecido pelo José Rofino, que terá sido o último oficial a exercer a actividade baleeira na Ilha do Faial.
Por ali passaram muitos outros do Pico e Faial que não conheci: Mestre João Lelé, Mestre João Maurício e outros das Lajes e das Ribeiras do Pico.
Muitos outros baleeiros do Cais do Pico, se deslocavam para o Capelo, acompanhados da família: Lavavam as suas embarcações de pesca, para ali pescarem e quando tempo não estava de feição pescavam na costa, vendiam o peixe na freguesia do Capelo ou salgavam-no para trocar por milho. Outros ajudavam os agricultores daquele freguesia, muitos deles também baleeiros. As carências eram tantas que estavam sempre preparados para a sua sobrevivência.
Como disse o Poeta tinham sempre -um pé em Terra outro no Mar. Quando regressavam no fim da campanha já traziam o milho, para sustento da família.
Recordo-me de um oficial Baleeiro, o Luisinho, de pequena estatura natural e residente no Capelo. Vinha à cidade com frequência. Certo dia na taberna do João de São Mateus junto ao Canto da Doca ali junto à Igreja das Angustias no Faial, o José Cardoso, oficial baleeiro, homem forte, que também estacionou no Porto do Comprido, convidou o Luisinho para tomar um copo, ao chegar perto do balcão agarrou-o pela roupa com uma só mão e sentou-o em cima do balcão.
Nas vigias d
e baleia do Costado da Nau, sobranceiras ao Farol dos Capelinhos que apoiavam os baleeiros do Porto do comprido, passaram muitos vigias de grande fama. O Izaias, o Rosairinha, os Caldeiras , o António Jezinho, João Lúcio e muitos outros.
Na madrugada do dia 27de Setembro de 1957, com a terra balançando continuamente, os vigias de baleia do Costado da Nau, a escassos metros acima do Farol, notaram o oceano revolto a meia milha da costa, para os lados de oeste. Desceram dos Costado da Nau pela última vez, alertaram os faroleiros e os baleeiros estacionados no Porto do Comprido ali próximo. Tinha-se extinguido a maior Estação Baleeira do Arquipélago dos Açores.
O mar entrava em ebulição e havia cheiros fétidos. O Vulcão dos Capelinhos tinha entrado em actividade.





************************************************************************************
Comentários por email, inerentes a este artigo:
Helena Morais (São Jorge)
Foi com muita pena que li o JP de 5 de Fevereiro (cronicas do cais). Sou filha e neta de Baleeiros da Ilha de S.Jorge das Velas e quando o Vulcão dos Capelinhos entrou em actividade, o meu Pai também por lá andava, na mesma companhia baleeira que os do Cais do Pico e nem deles se dignou falar. Talvez um dia alguem se lembre deles.
Comprimentos de uma natural de S.Jorge.



Resposta do autor:



-É sempre bom saber que, há alguém, que nos lê.
Pela Estação Baleira dos Capelinhos, no Porto do Comprido, passaram centenas de baleeiros, do Pico e do Faial.
Como refere, na sua mensagem, também muitos de S. Jorge. Pelo que agradeço a sua informação, que será preciosa para futura referência na caça à baleia.
Na minha crónica, procurei referir aos que conheci e que tinham um maior número de familiares, que viviam quase exclusivamente da caça à baleia.
É possivel que tenha conhecido os seus familiares, pois as matriculas das baleeiras dos Cais do Pico passavam todas pela minha mão, quando exerci funções na Delegação Maritima do Cais do Pico.
Se possivel, gostaria de saber quantos familiares seus exerceram a caça à baleia, os nomes e as categorias!
Muito obrigado pela sua mensagem.
Francisco Medeiros (Ex-cabo de mar do Cais do Pico)



Helena Morais (São Jorge)
Obrigada pela sua resposta sr. Medeiros. O meu Avô, era mestre da lancha, o nome dele era Manuel Dias. O meu Pai foi marinheiro do barco, trancador e até chegou ser mestre da lancha. O seu nome era Amaro Carvalho Medeiros, o irmão dele era o oficial do bote em que ele andava se chamava João. Já todos falecidos! O Pai do meu Pai, tambem era baleeiro. Morreu novo. Nem o conheci. Também se chamava Amaro Carvalho de Medeiros. O meu tio Eurico também foi trancador. Também já faleceu e outros parentes com a mesma arte que eu ja nem conheci, talvez o senhor tenha conhecido algum deles.
Continue a escrever e a dar a conhecer, como era nesse tempo.
Mais uma vez muito obrigada pela sua resposta
Comprimentos
Helena
diHITT - Notícias

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Publicação de Contos da Ilha-Maior

Os leitores estão perguntando se podem publicar seus contos, suas estórias. Fiquem à vontade!
Para isso, mandem seus contos e uma foto pessoal. Fotos inerentes à narrativa serão indexadas.
Email para postagem:


diHITT - Notícias

A MULHER DO PICO




Autor: Francisco Medeiros

A Mulher do Pico é a herdeira viva das mulheres que um dia aportaram a esta Ilha, há mais de 500 anos, para apoiar os seus companheiros.
Sempre animadas e cheias de fé, com o suor do seu rosto vergadas por vulcões, suportando todas as calamidades, ajudaram a transformar estas pedras negras em pão e garantiram a continuidade e o bem-estar daqueles que hoje vivem à volta da sua montanha.
Pode dizer-se que a Mulher do Pico foi aquela que ao longo dos séculos se moldou à natureza e características vulcânicas, da própria ilha.
Como mulher, esposa e mãe, trilogia que foi cumprida durante todas a etapas da sua vida, a Mulher do Pico, nunca desanimou e foi a base de sustentação do maior pilar do Mundo, a família.
A par com o homem na labuta do dia-a-dia, a Mulher do Pico percorreu milhares de quilómetros por veredas irregulares, entre currais de vinha e figueiras, cestos de uva e selhas à cabeça, qual bailarina, com o seu passo elegante, num palco imaginário tendo como cenário a montanha do Pico
Pote de água à cabeça, cesto de vimes com roupa no braço, lá ia ela a caminho da costa, onde lavava, enxugava e corava a roupa por cima das pedras negras e, de regresso a casa, trazia água dos poços de maré para os usos domésticos.
Desde os princípios do povoamento procura no mato a lenha com que coze os alimentos, faz o pão de cada dia e acende a lareira que aquece o lar nas noites invernosas.
A Mulher do Pico não tinha tempos livres: Usa o Tear para confeccionar o vestuário e agasalhos para toda a família. Tudo era aproveitado. Não existia trapo a que não fosse dado qualquer uso.
Quantas voltas dariam ao Pico os novelos de lã de ovelha transformados em meias e em peças de vestuário e os fios de linha transformados em peças de renda de rara beleza, pacientemente elaborados pela noite dentro, à luz da candeia?
Eram elas em casa que ensinavam aos seus filhos os Dons da Natureza, os bons costumes, o respeito pelos outros, incutindo-lhes ânimo e confiança sem medos.
Quantos dias e noites de angústia pois as carências eram tantas, para que os seus meninos dessem os primeiros passos na Ilha, mas também de muitas alegrias, ajudando-os a crescer, fortalecidos na harmonia de um lar sem complicações, na infância e juventude e, tornados adultos, cumprissem a sua missão como cidadãos do Mundo.
Muitas foram as limitações que superaram, que hoje, a séculos de distância, a memória dos homens não pode imaginar!
Hoje há de tudo, é mesmo ali ao lado e quem não quiser por o pé fora de portas, vem-lhes ter tudo a casa, mesmo aquilo que não presta e excede as nossas necessidades.
Vila de São Roque do Pico
Um Bom Ano
Janeiro 2010

xatinha@sapo.


diHITT - Notícias

NATAL E SOLIDARIEDADE




Autor: Francisco Medeiros


O Natal do nosso tempo, do tempo em que éramos jovens, é sempre recordado com saudade e nostalgia, da forma como era festejado com os nossos familiares.
O Natal é sempre o mesmo, só difere na forma de o festejar. Vai mudando conforme a idade de cada um e evoluindo com as mudanças sociais, com o aparecimento de novas técnicas que a ciência vai descobrindo.
As prendas e presentes de Natal à disposição das pessoas, que vemos e ouvimos na televisão, são tão variados e sofisticados que, pelos seus custos, em tempos idos seriam impensável adquirir. Apesar da crise económica, de que se ouve falar todos os dias, as queixas dos estabelecimentos comerciais são mínimas!
Hoje é difícil imaginar o que será o Natal daqui a 50 anos, mas sabemos como era o Natal da nossa juventude, há mais de 50 anos atrás. Embora com muitas carências de todo o tipo, era festejado com muito mais alegria e muito amor familiar.
Desde o principio dos meus verdes anos tenho festejado o Natal, conforme as circunstâncias familiares o permitem, mas tenho sempre presente os ensinamentos de que o Natal é a festa comemorativa do Nascimento de Jesus.
Há muita gente que não sabe porque é que esta quadra se chama Natal. Muitos dizem que é a festa da família, que se comemora o nascimento de Jesus. Outros, que é o dia da consoada, o dia das prendas e ofertas. Até é possível que na nossa terra, haja gente que pode não saber porque que é que esta quadra se chama a quadra de Natal.
Embora a história não explique tudo, duma coisa temos a certeza: Há mais de dois mil anos um casal cuja Senhora estava para dar à luz uma Criança não teve lugar nas hospedarias, porque na cidade havia um recenseamento da população e as hospedarias estavam cheias. José, o marido, procurou uma casa mais recatada, uma casa como as nossas muito antigas, talvez com vacas por baixo! Foi ai que nasceu Jesus.

E se o Jesus Cristo nascesse hoje?
Será que havia lugar para ele ? Se não há lugar no hotel haverá numa residencial ou numa casa particular que aluga quartos? Talvez numa atafona?
Não, talvez não houvesse nada disso!
Porque a mensagem que ele trouxe, é uma mensagem que ensina a amar, a dar a mão, a ajudar, a cooperação, a repartir os bens deste mundo. Uma mensagem incómoda que contraria aos interesses de uma classe, que se instalou e teima em viver à custa do seu semelhante.
Neste mundo há milhões de seres humanos que nesta quadra de Natal, não sabem o que vão comer, se é que vão comer alguma coisa. Há milhares de refugiados por esse mundo fora escorraçados da sua própria terra, seres humanos, homens, mulheres e crianças, à espera da morte, não vivem, vão passando o tempo até que a morte os liberte. O único crime que cometeram foi terem nascido!
Há ainda muitos outros, possivelmente muito próximos de nós, cujo sofrimento merece a nossa atenção.
Sejamos solidários com eles, porque se o Menino Jesus não tem lugar neste Mundo, de certeza que terá lugar no coração de cada um de nós.
A todos os leitores, e aos que dão vida a este jornal, de semana a semana para que veja a luz do dia, vão os meus votos de muita saúde e um Santo Natal com muita alegria.
Natal de 2009

xatinha@sapo.pt


diHITT - Notícias

domingo, 6 de dezembro de 2009

A Ilha Maior

Há um ditado que diz "palavras leva-as o vento". Melhor que palavras, a escrita. Mas não há nada que supere as imagens. Neste clip feito, sem nenhuma pretensão artística, e apenas só, com a finalidade de reunir fotos de nossa Ilha Maior, sob o tema musical de Carmina Burana, aqui orquestrada pelo magnífico conjunto "ERA", levo aos nossos leitores as faces daquela, que é a maior montanha de Portugal, com 2. 351 metros, se elevando do mar. A maior de mundo em elevação, a pique, acima do nível do mar.



diHITT - Notícias

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

RELATO DE UMA CAÇADA Á BALEIA . HÁ SEMPRE UMA PRIMEIRA VEZ!





Autor: Francisco Medeiros
Depois de terminar a II Guerra Mundial, em 1945, as actividades do porto da Horta foram diminuindo, e em consequência diminuindo a procura de mão obra.
O comercio Faialense, ficou quase paralisado em consequência da falta de trabalho na classe operária. As obras públicas , mantiveram-se quase inalteráveis, na admissão de trabalhadores, mas passaram a admitir os mais qualificados. Com a saída da base naval Inglesa e a retirada do serviço de barragem do Comando de Defesa Marítima do Porto da Horta, fecharam muitos estabelecimentos comerciais.
A vitalização do Porto da Horta.
No final da década de 40 e anos 50 até à machadada do Vulcão do Capelinhos em 1957 do século passado, era difícil conseguir trabalho. Os jovens desempregados que não tinham qualquer qualificação atiravam-se a tudo o que aparecia. Os que possuíam cédula marítima, trabalhavam no fornecimento de carvão a navios, ou na estiva de cargas e descargas de mercadorias, nas pescas ou na caça à baleia.
Na caça à baleia era difícil conseguir um lugar, para quem não era filho nem parente de baleeiro, porque as companhias estavam completas embora só estivessem matriculados, o oficial e o trancador. Na época baixa, que ia de Outubro a Maio, os baleeiros abandonavam tudo, para ir à baleia, mas com a falta de trabalho os patrões e encarregados não eram muito atreitos a dispensá-los para irem à baleia, razão porque muitos para manter o trabalho, ouviam o estralejar do foguete dar sinal de baleia, mas ficavam-se pelo trabalho, pois o dinheiro fazia falta. Ia à baleia quem chegava primeiro e se agarrava à bancada do bote.
O Andrade ainda jovem, residente ali para o lados das Angústias, redondezas de Porto Pim, era daqueles que faltava à escola, quando aparecia baleia, para ver as canoas saírem de Porto Pim, em autenticas regatas a remos, ou à vela, se o vento estava de feição. A rapaziada tomava partido por este ou aquele oficial, para ver quem chegaria primeiro à saída da ponta Oeste do Monte de Guia, por entre esta e a Pedra Alagada, como se dum desporto se tratasse. Depois dali, lá seguia com outros, até à vigia subindo o Atalho de Bacalhau, para no Cabeço das Garças, onde se situava a vigia, que fica a oeste da Ermida da Senhora da Guia, ver a actividade baleeira. Auxiliavam, o vigia a fazer fumos ou a manejar o pano de sinais, sempre na esperança que aquele cedesse por curtos momentos o binóculo para vigiarem as baleias, como compensação da ajuda prestada.
Já moço com cédula marítima, e com 16 anos, era daqueles que como outros deitava a mão a todo o trabalho que aparecia, mas quando não havia que fazer, quando ouvia o sinal de baleia corria para o areal de Porto Pim, ajudava a arrear os botes, na esperança de algum dia na faltar de qualquer tripulante poder concretizar um sonho que há muito o acompanhava.
A mãe, que sabia da sua vontade, já tinha manifestado o seu desagrado por saber o perigo que o filho corria, mesmo assim s
em nada lhe dizer preparava-lhe alguma comida que ficava de véspera junto a uma bolsa de retalhos. O pai, homem do mar e descendente de uma família de pescadores, não se importava e, já tinha trocado algumas palavras com um seu vizinho baleeiro, acerca da ida do filho à baleia.
O Andrade metia a c
omida na bolsa, que escondida debaixo da soera ou da froca, não fossem os outros ver e depois rirem-se dele, por não ter conseguido lugar.
Chegou o
dia, ainda a última bomba do foguete não tinha rebentado e já ele saia porta fora, a caminho de Porto Pim. Foi dos primeiros a chegar e, teve conhecimento de que estava um navio na baia da Horta à descarga, por isso, era possível conseguir um lugar.
O Andrade chegou-se para o bote, N. S. das Angústias, da Companhia Baleeira Faialense, de que era oficial o mestre António Ferreira mais conhecido pela alcunha Caneca, que tinha como trancador o José Cardoso Pinheiro, seu vizinho, a quem já manifestara vontade de ir à baleia.
Ajudou a recolher o pano
que estava a enxugar e, a preparar o bote para arrear até chegarem os outros reparando que faltava um tripulante.
Agarrou-s
e a um dos bancos e ajudou a arrear o bote até à beira d’água. e viu aproximar-se o tripulante faltoso e este entrar para o bote mas também ouviu a vós do oficial dizer:
- Ó B...salta p’ra fora !

E ouviu o Mestre António dizer-lhe:
- É rapaz salta, vem
aqui p’ró o remo da boga .(voga- remo que fica junto ao oficial a contar da popa).
O seu contentamento não tinha explicação. Já conhecia os nomes de todas as peças fixas e moveis de um bote baleeiro, por frequentar a casa dos botes, de forma que foi fácil a sua adaptação.
Era um ca
rdume da baleias fora da Feteira que tinha sido avistado do Monte da Guia. O vento era fraco não dava de vela, de forma que, foram remando até quase fora da Feteira, as baleias foram sempre a caminho do Oeste. Ali a lancha que tinha recebido sinal do vigia pegou no bote. Passaram Morro de Castelo Branco e já fora dos Capelinhos, as baleias foram avistadas da lancha.
Largaram a lancha
que se afastou para ira rebocar outros botes e como o vento tinha aumentado como o Sol p’ra cima, fizeram de vela e lá foram pelo mar fora até que o cardume foi avistado. As baleias tinham saído, pegaram nas pás para dar mais velocidade ao bote. Cabe aqui referir que o José Cardoso, com o seu entusiasmo e homem forte como era, a água da sua pá quase que varria as dos outros.
- Padeja duro, dizia mestre António !
As baleias meteram-se novamente, pois estavam ainda distantes. Pararam de padejar. O vento era bom
. Foram andando p’ra fora.
É uma sensação fantástica andar à vela num bote baleeiro ouve-se o marulhar à proa o resto é só silêncio. Com a velocidade do bote, vê-se por vezes o mar subir na borda do lado de sotavento às vezes mais de um palmo, sem entrar um pingo de água.
Dali a pouco diz o mestre António:
- Ó rapazes, cada cabelo um olho, as baleias estão a sair !
Dali a pouco
, as baleias saíram mesmo pertinho, o bote arribou direito a elas, e diz o mestre António:
- Peguem nas pás, não quero que toquem no bote, nem ouvir barulho nenhum
, muita atenção quando eu mandar arrear o pano.
O José Cardos
o em pé à proa prepara o arpão. Vão se aproximando, rapidamente, o cardume era de sete baleias, o bote tinha entrado por trás e pelo meio delas.
- Arria o pano,
diz mestre António.
Uma das baleias tinha sido trancada.
Ouve-se mestre António dizer:

- Água na linha.
Apanharam o pano, e prepararam-se para arrear o mastro, logo
de seguida.

A baleia foi por aquele mar abaixo levou mais de uma celha de linha.
- A Baleia está p’rá terra, aqui direita ao Faial, diz e o José Cardoso.
- Vocês armem os remos todos.
Foram rema
ndo, remando sem puxar a linha e, o José Cardoso preparou-se com a lança.
A baleia saiu bem perto do bote, não aparecia mais baleia nenhuma. Levou duas lançadas e começou a bufar sangue grosso. O bote foi mais adiante, a baleia levou outra lançada e meteu-se por aquele mar abaixo.
Começaram a puxar a linha e a certa altura, parecia que a linha estava presa ao fundo, eram 6 homens a puxar e ás vezes era preciso gritar para controlar a força e puxar à uma, enquanto mestre António ia emendando a linha em volta do lagaiéte (cabeço de madeira dura colocado no leito da popa).
Foram puxando pela linha, levou bastante tempo, quando a baleia chegou à superfície já estava morta mas não flutuava, só depois é que ficou suspensa na água. Mestre António, foi à proa fez-lhe um furo na cauda com uma es
pelha (spade, instrumento cortante ) e passou-lhe um estropo (cabo grosso com duas alças) para o reboque.
Depois cansado
s, cada um puxou da sua bolsa, sentaram-se no meio do bote, puseram em cima da caixa tudo o que trouxeram de casa à disposição dos outros, e cada um foi tirando, comendo e bebendo água doce do “queique”(barrilete de água ). Queria aqui referir, que nesse dia mestre António Ferreira, trazia no seu cabaz, um bolo doce já partido, que dividiu em sete bocados e deu um a cada um. Naquele tempo pensei em fazer a pergunta, porquê bolo doce ? Mas, nunca o soube!
O Vento era L
este e como se costuma dizer, vem a vai com o Sol, para a tarde tinha acalmado. Ficaram para ali, com a baleia presa ao bote, naquele silencio só quebrado por alguma palavra. A tarde já ia alta, a Ilha do Pico parecia um pequeno triângulo e às vezes nem aparecia, e do Faial só avistavam dois pequenos cabeços.
O Bote devia estar mais de 40 milhas a Sudoeste dos Capelinhos.
O Sol ia descendo para o horizonte, quando começou a aparecer o fumo de uma embarcação, o som de um motor, e depois a própria embarcação. Era o “Cachalote”, das Armações Baleeiras do Cais do Pico, tripulado pelo Mestre Cristiano Garcia da Rosa, tendo como maquinista Manuel Guilherme Garcia, residentes em São Roque do Pico, tinha mais um tripulante que era da Prainha do Norte.
Além do Mestre António Ferreira, e o José Cardoso o Andrade era o mais novo, com 17 anos. Os restantes tripulantes do bote, eram, o Manuel Gonçalves Valadão, conhecido pela alcunha de Gaiola, que chegou a andar co
m a carrocinha do Gilberto das lanchas quando este não ia ao Faial. O João Inácio de Serpa, conhecido por João Pão Quente, natural da Prainha do Norte do Pico, cunhado do José Cardoso que, quando este passou a oficial, foi seu trancador, o Fernandes Silveira Leal, conhecido por Fernando do José da Luisa, que jogou ao futebol no Atlético e o Francisco Elias da Candelária do Pico, que foi mestre da lancha da baleia “Liliana”. Todos residentes na freguesia das Angústias.
A baleia foi rebocada para a Fábrica de Porto Pim onde chegou por volta das 3 horas da madrugada.
São passados 61 anos! O Bote N.S. da Angústias é o único que resistiu e não abandonou o Faial, de vez em quando ainda mostra que é a mais belas embarcação que há no mund
o!
Dos baleeiros aqui referidos, o Mestre António Ferreira; O José Cardoso Pinheiro, O João Inácio de Serpa e o Fernandes Silveira Leal emigraram para os EUA, após o Vulcão dos Capelinhos. O Manuel Gonçalves Valadão ficou-se pelo Faial.
Ainda estão vivos o Fernandes Silveira Leal com 83 anos e reside na Florida, e o Andrade com 78 anos, reside no Cais do Pico, Ilha do Pico.
Nota: Tudo o que está aqui relatado é verdadeiro.
Vila de S .Roque do Pico/Setembro 2009

Francisco Andrade de Medeiros
xatinha@sapo.pt
(publicado no nº.3 do Jornal “Triangulo”)



Trecho de filme "Quando o Mar Galgou a Terra" de António Campos, que documenta a caça à baleia nos mares dos Açores.




http://asombradovulcao.blogspot.com/feeds/posts/default

diHITT - Notícias

O TRIANGULO CAIS DO PICO. VELAS . CALHETA E OS ANOS DE FOME


Autor: Francisco Medeiros
Foram muitas as calamidades, provocadas por vulcões, terremotos, inundações, enchentes e tempestades que assolavam tudo, destruindo habitações, culturas agrícolas e obrigaram muitas famílias a abandonarem a ilha.
Os chamados anos da fome, que atingiram ao longo dos anos muitas ilhas do Arquipélago, até às primeiras décadas do século passado, obrigaram as populações, a imigrar para a ilha mais próxima e de fácil acesso. Há mesmo noticia de ter havido quem morresse à fome.
Este recurso nem sempre foi possível atende
r as necessidades das ilhas vizinhas quando sofriam das mesmas calamidades.
Sucede, que das Ilhas do triângulo, foi a Ilha do Pico, especialmente a fronteira, que mais sofreu, com a carência de milho
por causa da natureza dos seus terrenos de origem vulcânica, mais próprios para plantação de vinha. Os Picarotos negociavam na Ilha do Faial, a compra de milho em maçaroca, nos próprios terrenos de produção. Procedia-se à sua apanha e posteriormente era transportado nos barcos do Pico . Quando o milho chegava ao Pico era muitas vezes descarregado junto à casa dos seus proprietários e todos os vizinhos ajudavam nas desfolhadas, pela noite dentro, iluminados com luzes de incandescência a petróleo. Outros compravam-no, já em grão e muitos outros, especialmente os pescadores, percorriam a Ilha do Faial a pé, em toda a volta, com peixe seco, que trocavam por milho. Uma das últimas calamidades ocorreu com o ciclone tropical, que atingiu o Grupo Central dos Açores, em 24 de Agosto de 1857, provocando a destruição total dos milharais, então a principal produção alimentar das ilhas de São Jorge e Faial, que resultou na penúria generalizada, às três Ilhas do Triângulo.
Esta penúria manifestada pela fome, com as suas cores negras, manteve-se pelos maus anos agrícolas seguintes, com uma crise alimentar que predominou até final do ano de 1859. Foi preciso recorrer a subscrições públicas, incluindo uma nos EUA, organizada pela família Dabney, residente na Ilha do Faial, para evitar que se
morresse à fome.
Estes acontecimentos calamitosos, fizerem com que o Príncipe D. Luís visitasse a Ilha do Faial no Outono de 1858.

Os Dabney foram uma ajuda muito importante, durante ao anos que permaneceram no Faial de 1808 a 1892, suprindo muitas carências de milho e trigo que importavam directamente dos EUA.
A mais recente época de fome conhecida no Pico, data dos anos vinte, do século passado, em que um grupo de picarotos sob a iniciativa de Manuel Inácio Nunes, construtor naval na Califórnia, natural da freguesia de Santo Amaro, recolheram fundos e enviaram para esta Ilha em 1923, cerca de uma centena de sacos de milho, que foram distribuídos pelos mais pobres das freguesias da banda do norte do Pico.
Toda estas crises de trigo e milho, principal alimento das populações, originaram, proibição de saída daquele cereal de algumas ilhas para outras. As Câmaras de Velas e Calheta lançaram anúncios públicos, para que ninguém embarcasse para fora do concelho, sem licença, milho e trigo.
Tal proibição originou a troca de correspondência entre as Câmaras Velas e São Roque, na qual esta
se queixava, das Velas, não deixar sair cereais para este concelho, visto existirem naquele Ilha, grãos em abundância. Numa carta datada de 21 de Abril de 1678, a Câmara de S. Roque, queixava-se dizendo que: "até ao presente data, do que havia na Ilha do Pico, não se fazia nenhum impedimento de saída para aquela ilha (São Jorge) de tudo o que produzia, e que o que daquela importava era devidamente pago". A Câmara de Velas, desculpando-se, em carta dizia que pretendia “controlar a saída qualquer cereal em virtude dos mesmos não serem muito abundantes, pois poderiam fazer falta, e não ser justo a saída os mantimentos". Acrescentando: - “Estejam Vossas Mercês certos que, como bons vizinhos, não faltaremos em o que a justiça der lugar.”
Esta proibição de c
irculação de mercadorias entre as Ilhas do Arquipélago manteve-se por muitos anos.
Só os Barcos do Pico dos portos da fronteira, Calhau, Madalena e Areia Larga estavam isentos de guia de circulação de mercadorias.
Esta imposições originaram um intercâmbio de mercadorias entre portos e portinhos, onde não existiam postos fiscais ao longo da costa Norte do Pico e os da Ilha de São Jorge, sendo as mercadorias transportadas em embarcações de pesca, ao tempo, só à vela ou a remos e durante a noite, quando o tempo lhes dava segurança.
Outra situação que se verificou ao longo dos anos e segundo versão de antigos pescadores, pelo po
rtinho da Furna da Freguesia de Santo António e outros desta banda do Norte do Pico, teriam saído, centenas barris de aguardente, para aquela Ilha.
A proibição da circulação de aguardente, acabou nos anos setenta, com a abolição dos monopólios da venda de álcool.
A circulação de todas as mercadorias em barcos de cabotagem, entre estas duas Ilhas São Jorge e Pico, e bem assim em toda a Região, durante muitos anos estiveram sujeitas a despacho de cabotagem, exigência que só terminou em 1970.
No Cais do Pico, ha
via barcos de boca aberta a motor e à vela que faziam cabotagem quando havia mercadorias ou passageiros a transportar a partir Cais do Pico, para os porto da Horta e os portos da costa de São Jorge, onde era possível acostar, transportando mercadorias e alguns passageiros. Faziam triângulo Cais, Calheta, Velas e alguns portinhos intermédios.
Voltando à proibição da saída de cereais de São Jorge para o Pico, certo dia ao chegar ao porto da Calheta, o mestre de um dos barcos, foi abordado por um sujeito que pretendia embarcar para o Pico, 4 sacas com milho. Naquele tempo era livre a saída de milho do Pico.
O mestre disse-lhe qu
e sim mas, que tivesse o cuidado de colocar os sacos sobre o cais, com rotulo destinado às Velas mas, sem o guarda fiscal ver, que depois tratava do resto.
Como era uso, o mestre lá foi ao posto fiscal desembaraçar o barco e, como era de praxe, o Guarda Fiscal acompanhava o mestre até ao Cais.
Ao chegar ali e vendo os sacos sobre o cais, disse em voz alta para os tripulantes:
- Quem é que mandou descarregar estas sacas ?.
Um dos tripulantes conhecendo bem o seu mestre, já sabia do que se passava, respondeu-lhe:
- Home, a gente parecia-se qu`eram p’rà qui !
- Não viram que o rotulo diz qu’é p’ràs Velas ?
- Metam já isso ai p’ra dentro !.
E os sacos lá embarcaram com o Guarda Fiscal a assistir !
E lá vieram para o Pico .
Junho 2009


diHITT - Notícias