Crônicas, contos e narrativas do passado, de gente que vive na ilha do Pico, ou estão espalhadas pelo mundo e tem muitas estórias para contar. Mande seu conto.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

PADRE ISIDORO DA SILVA ALVES

Autor: Francisco Medeiros
O Padre Missionário Isidoro da Silva Alves nasceu em São Roque do Pico, na Ilha do Pico, nos Açores, em 15 de Janeiro de 1924, era filho de filho de Mariana Augusta da Silva e de Manuel Isidoro Alves Garcia, família de agricultores. 

Criado em ambiente familiar cristão, Isidoro Alves era filho de gente humilde. Após o ensino primário dedica-se à agricultura, no amanho das terras como os seus antepassados mas, sonha como todos os jovens da sua idade, para ele o sonho era um dia vir a ser Sacerdote e Missionário. Um seu tio, Padre Manuel Augusto da Silva, também missionário na Nova Inglaterra terá tido influencia, nesta sua vocação.

Ingressou no seminário de Angra com a idade de 16 anos, não sem algumas dificuldades, pois o ingresso naquela instituição estava limitado a jovens com um máximo de 14 anos.

Os seus estudos decorrem com normalidade mas com dificuldades económicas, sempre que vinha ao Pico em férias, ocupava os seus tempos na agricultura, dando dias p’ra fora, nas vinhas e roças do mato, auferindo ao tempo sete escudos e meio.

O seu aproveitamento como estudante do seminário, chega ao conhecimento de um benfeitor, luso brasileiro, que conhecendo as dificuldades económicas familiares, se presta a concorrer com ajuda financeira, no prosseguimento dos seus estudos.

Confidenciou-me que quando seminarista, foi encontrado num caminho em S. Roque com um molho de pasto às costas, tendo alguém lhe dirigido estranha pergunta !

- Já deixaste o seminário ?

Ordenado padre na Sé de Angra em 1 de Junho de 1952, celebrou Missa Nova em 13 de Julho do mesmo ano na Matriz de São Roque.

Porque o seu espirito de missão o acompanhava sempre, entrou em contacto com o Bispo de Timor, D. Jaime Garcia Goulart, natural da Candelária desta Ilha, em férias no Cais do Pico, desses contactos renasceu o seu desejo de seguir para as missões em terras Timorenses.

Após várias diligencias junto da diocese chega ao Oriente na companhia do Bispo D. Jaime, em 1953 no dia de todos os Santos.

Colocado como  professor do Seminário Menor, em Dare onde esteve 6 anos, logo de inicio teve a preocupação de ver como funcionava toda a vida e sistema interno dos seminaristas, verificando a precariedade da sua alimentação que procurou melhorar. Conseguiu montar uma moagem vinda da Metrópole para moer e como complemento a construção de um forno.

Depois da frustração da primeira fornada, as restantes saldaram-se pelo sucesso tendo mesmo pela Páscoa cozido folares à moda do Pico, com que brindou as missões locais, elementos do Comando Militar, chegando mesmo à mesa do Governador.

Orientou o cultivo de uma granja anexa ao Seminário em proveito dos alunos que ali estudavam, enriquecendo a sua alimentação.

Em 1961 foi Vigário na Missão de Soibada, onde se manteve por algum tempo, tendo regressado a Dili como procurador e administração das missões e secretário particular do Bispo D. Jaime.

Dirigiu uma fábrica de cerâmica, promovendo mão de obra, dando trabalho a tantos necessitados. Com os lucros da vendas dos objectos fabricados foram subsidiadas a construção de três igrejas.

Sugere a D. Jaime para que a Diocese fosse dotada com uma tipografia de que foi seu superintendente.

A Diocese editava uma revista a SEARA, que teve como seu primeiro director o Pe. Ezequiel Enes Pascoal, também Açoreano. Esta Revista era enviada mensalmente por via Aérea para o Ministério do Ultramar em Lisboa.

Era a única tipografia privada da colónia, onde consegue desenvolver uma acção notável: O fabrico de todos os cadernos, escolares, para o seminário e as escolas orientadas pelas missões.

Posteriormente foi cooperador e superior da Missão de Aivaro e Ossu, respectivamente em 1967 e 1974 encontrando-se nesta última quando se deu a descolonização.

A sua tenacidade em crer sempre ajudar os outros, fizeram dele um verdadeiro Missionário polivalente em todas as suas actividades sempre com o espirito de bem servir para minorar as carências dos seus irmãos para que o seu futuro sócio económico fosse mais suave, toda esta acção chegou a merecer reparo de alguns colegas.

Deste facto e para não ferir a hierarquia a que pertencia e sempre respeitou, levou o Padre Isidoro, com toda a transparência com que sempre pautou a sua conduta, a aconselhar-se com o seu prelado que nele tinha depositado toda a confiança, obtendo como resposta:

- Quem anda fás poeira, a poeira incomoda, continua a andar !

É por atitudes destas que os católicos Timorenses que na altura rondavam cerca de 80%, da população de Timor-Leste mais de 400 mil corações, veneravam o seu Bispo, que com eles viveu mais de 30 anos: Que atendia pessoalmente à porta, ao telefone e conduzia ele próprio o seu carro, e dizia, com fina ironia mas, sem malícia, que era provavelmente em todo o muno o único que tinha por porteiro e condutor um Bispo.

Disse-me um Picaroto, em comissão militar em Timor, contemporâneo do Padre Isidoro, que se o conhecimento é cultura, então o “Padre Isidoro é um dos Padres mais cultos da nossa Ilha”.

A sua última missão foi em Ossu quando se deu a descolonização tendo deixado Timor em Agosto de 1975 após mais de 20 anos como Missionário e regressado à Ilha do Pico.

Nesta ilha o Padre Isidoro acumulou as paroquias da Piedade e Ribeirinha, de Santo Amaro e Prainha, duas paróquias em simultâneo. Nesta última freguesia, concorreu para restauro as colunas das naves da Igreja que se encontravam cobertas de cal, o restauro do Salão Paroquial e a construção de uma cozinha anexa.

Curiosamente em Timor o Padre Isidoro, teve como aluno do Seminário um jovem Timorense, filho de um catequista, que chegou à Presidência da mais jovem República do século XXI, Xanana Gusmão a quem alcunhou de, Ibum Mider que em tétum quer dizer, lábios doces, por ser muito comedido e meigo nas suas falas.

A obra Missionária do Padre Isidoro, teve sempre por base a promoção humana ensinando os nativos, a maneira de tirar o melhor partido dos seus recursos naturais, promovendo a sua formação profissional e cultural.

Em 2002, ano do seu falecimento os paroquianos de São Roque do Pico, prestaram significativa homenagem ao Padre Isidoro no aniversario de 50 anos de vida sacerdotal
email do autor Francisco Medeiros

diHITT - Notícias

segunda-feira, 10 de maio de 2010

JOSÉ CARDOSO PINHEIRO - Oficial baleeiro

Autor: Francisco Medeiros
Conheci o José Cardoso, ali no Bairro Mouzinho de Albuquerque na freguesia das Angústias da Ilha do Faial.

Foi uma figura que pela sua simpatia e respeito, no dia a dia, deixou marcas na memória mereceu, de todas as pessoas com quem contatava, no dia a dia, deixou marcas na memória das gentes da freguesia das Angustias.

Como jogador de futebol no Atlético onde brilhava a defesa central, foi uma referência, não só pelo amor à camisola como, apesar de ser um homem forte, era muito disciplinado dentro do campo.
Foi por sua influencia que fui pela primeira vez à baleia com 17 anos, era ele trancador de baleia. Na caça à baleia era um grande entusiasta recordo-me a primeira vez que arreei à baleia ali para fora dos Capelinhos - é quase sempre a primeira vez que nos fica na memória por se tratar de uma novidade - perseguíamos um cardume de 7 baleias, o José Cardoso com o desejo de se aproximar do cardume, dava indicações, aos remadores, puxando por eles chamando-lhes nomes de forma zangada mas dando o exemplo pelo esforço que despendia naquelas ocasiões.

Depois da baleia trancada, morta e amarrada pronta para ser rebocada, parecia uma criança com a satisfação estampada no rosto. elogiando o nosso trabalho. Fizemos outras arriadas, o José Cardoso era igual a si próprio, tudo o que fazia, era sempre com empenho, dedicação e espirito de equipa.

Recordo o José Cardoso, fazendo par com o Manuel Teixeira Semilhas este também jogador do Atlético, nas descargas de carvão a bordo dos cargueiros despejando aqueles grandes baldes cheios de carvão para os balelões amarrados à borda.

Era um homem de porte atlético. Recordo-me que ali em frente ao armazém de carvão da Fayal Cool, em frente ao canto da lado da Terra, havia um grande número de correntes gatas e ancoras destinadas à fixação das bóias de amarração de navios no interior do Porto da Horta. Á hora do almoço e quando estava bom tempo o José Cardoso, o mestre António Canequinha, o Carlos Eugênio e muitos outros entretinham-se a levantar a haste de uma das gatas, proeza que só o José Cardoso e o Canequinha o faziam com facilidade, apesar deste ser de pequena estatura, levantando-a até à cintura os outros, alguns, nem a suspendiam do chão. Certo dia o José Cardoso com a genica que se lhe conhecia levantou a gata quase até ao peito, ficando os outros de boca aberta. Outra dêle! Havia no Capelo um oficial baleeiro de nome Luisinho, de pequena estatura, mas um bom profissional, muito amigo do José Cardoso. Certo dia numa taberna das Angústias, ali ao lado da Igreja, o José Cardoso convida-o para tomar um copo, e quando lá chegaram o José Cardoso forte como era, pegou-o só com uma mão e sentou-o em cima do balcão.
Foi uma época que desapareceu, do nosso quotidiano, quase todos os marítimos viviam com um certo desafogo, enquanto durou a II Guerra e pouco mais. Depois foi a debandada provocada pelo Vulcão dos Capelinhos que mudou o Faial e mudaram-se as gentes. Foram-se os baleeiros e com eles todos os marítimos que davam uma certa vida ao Porto da Horta, resta-nos a recordação.

O José Cardoso, como não podia deixar de ser, foi também um dos que emigrou na década de sessenta até à Costa Leste dos Estados Unidos aonde viveu até ao ano de 2003.
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domingo, 18 de abril de 2010

HISTÓRIA DOS BARCOS DO PICO I

O “TERRA ALTA “
                                                                                     Autor: Francisco Medeiros
Vista de cima do ramal que a liga à estrada Regional, a freguesia de Santo Amaro é linda.
Na ilha do Pico com o casario encosta abaixo, disperso entre o verde da vegetação, com a sua Igreja e o seu porto ao centro. Tendo como remate a ponta Leste da Baia do Canto da Areia e ao o fundo a Prainha.
Foi do porto de Santo Amaro que em 1947 saiu o “Terra Alta”, iniciando as suas viagens nos Grupos Central e Oriental dos Açores.
Natural desta terra, foi também o seu primeiro mestre, Manuel Joaquim Neves, já falecido com a proveta, idade de 91 anos, marinheiro experimentado e sabedor das coisas do mar, aliadas a uma delicadeza de trato, cumprimento do dever e de bem servir. Muito lhe devem estudantes, militares e populações por essas ilhas fora.
Muitas fora as vicissitudes por que passou, além das naturais provocadas pelo mar, com algumas viagens menos boas mas sempre superadas. Outras houve de ordem burocrática, por vezes com exagero e exorbitância de funções por agentes do Estado.
Há dias fui a Santo Amaro fazer-lhe uma visita, pois encontra-se adoentado. Recordando coisas passadas contou-me ele:
Que certo dia no Porto de Ponta Delgada e após proceder na Alfândega ao despacho do Terra Alta para sair com carga e passageiros, para as ilhas do Grupo Central, ao dirigir-se para o Cais de embarque, onde o barco estava atracado, verificou que os passageiros já se encontravam todos a bordo sem sua autorização e, sem presença do cabo de mar. Ao perguntar ao agente da Policia de Segurança e Defesa do Estado mais conhecida pela Pide, quem tinha autorizado o embarque dos passageiros mais cedo este respondeu-lhe que tinha sido ele, porque ia para um casamento.
O Cabo de Mar quando ali chegou aceitou as informações do mestre, considerando o embarque já consumado, dizendo ao mestre que podia sair mas, foi avisando que iria dar conhecimento da ocorrência ao Capitão do Porto.
Na viagem seguinte à sua chegada estava o mesmo cabo de mar, que lhe disse:
- Ó mestre, o senhor tem que estar às 10 horas na capitania !
- O que é que se passa ?
- Olhe eu fiz a participação e o senhor tem que ir falar com o Capitão do Porto.
Como ainda era cedo dirigiu-se à capitania para entregar as listas dos passageiros onde trabalhava o patrão mor, um tal tenente Santos. Quando lá chegou aquele disse-lhe:
-Ó Terra Alta! Prepara-te porque tens aqui um processo muito grande por causa do embarque dos passageiros sem a presença do agente da autoridade marítima.
O tal tenente Santos chamava-lhe Terra Alta. Durante muitos anos os mestres do Terra Alta usavam no boné uma fita bordada com o nome do barco.
Mestre Manuel Joaquim, perguntou-lhe o que é que ele achava que fizesse para solução da situação e, o patrão mor disse-lhe que ele procurasse alguém na Cidade que o desenrascasse.
Ele assim fez e, foi procurar um Senhor Carlos que era empregado da firma Domingos Dias Machado, a quem contou o que se passava e, este disse-lhe:
- Tu não tens um irmão que é padre ?
Tenho sim senhor !
- Olha eu tenho visto o Padre da Matriz a passear muito de automóvel com o Capitão do Porto.
Foi procurar o Padre da Matriz e quando lá chegou, o padre disse-lhe:
- Ó mestre tu por aqui, o que é que andas fazendo? Entra pra dentro, vamos tomar café. Tu estás nervoso! Quando é que sais?
Disse que na amanhã seguinte, mas que tinha uma participação na capitania, iam reter os documentos e o barco e contou-lhe tudo o que se tinha passado, ao que o padre lhe disse:
Olha, vais fazer tudo como se nada se tivesse passado !
Assim fez. Na viagem seguinte foi novamente chamado à Capitania e foi presente ao Capitão do Porto. Quando lá chegou este perguntou-lhe:
- Tu é que és o mestre do Terra Alta ?
Ele estava farto de o conhecer, pois já tinha sido Capitão do Porto da Horta (Cap.Ten. Newton da Fonseca)
- Vocês andam de mestres nesses barcos mas não sabem os seus direitos, nem conhecem a sua autoridade como mestres!
Disse-lhe que já sabia tudo o que se tinha passado.
- Amanhã vou contigo para a Terceira, e o que é que eu vou ser a bordo do barco? -
É o Capitão do Porto de Ponta Delgada !
- Sim é verdade e respeito essa tua consideração que agradeço, mas lá dentro quem manda és tu e eu sou apenas um passageiro .
Tudo isto se passou porque o mestre não exerceu sua autoridade participando do agente da Pide.
Como todos sabem quem participasse de um agente da Pide, só arranjava problemas, pois estes procuravam todos os meios para prejudicar, incluindo ser preso por atentar contra a segurança do Estado.
Ao tempo a Pide controlava o movimento nos iates e dos navios de passageiros. Não respeitavam ninguém exorbitando por vezes o exercício das suas funções, com prepotência.
Esta situação não era bem vista pela Autoridade Marítima e mestre Manuel Joaquim ficou sob fogo cruzado.
Acaso ou não, coincidência ou não foi a Marinha quem tomou conta do edifício onde se encontrava instalada a policia Pide, na rua António Maria Cardoso após a revolução do 25 de Abril.
Como curiosidade, um dos elementos da marinha que lá estavam, ao tempo sargento fuzileiro, - Luís Pinto Miranda, posteriormente assumiu o cargo de Delegado marítimo no Cais do Pico, reformando-se com o posto de Capitão de Fragata.

Email do autor: Francisco Medeiros

Email do Leitor: Noélia (Califôrnia)

Titulo: Adorei a sua história do Terra AltaEsta grande rede da internet que nos liga a todos!
Nasci nos Cedros Faial. Sou sobrinha do Padre Rodrigues e vivo na California.
Mais uma vez adoro as suas histórias do seu blog(sic). Obrigada por pôr os seus sentimentos em forma de todos partilharmos.
Noelia (Alvernaz Rodrigues)

Resposta do Autor:
É sempre bom saber que há alguém que nos lê !
Obrigado pela sua mensagem .
Não sei de onde é, mas julgo que conhece, quem foi mestre Manuel Joaquim Neves, que fazia o favor de ser meu amigo, e com quem profissionalmente contactava com muita frequência, ali na Delegação Marítima do Cais do Pico, onde eu trabalhava.
Um abraço!
Francisco Medeiros
diHITT - Notícias

O “PAPA DAS LAJES”

                                                              Artigo de 2003. Autor: Francisco Medeiros
O Padre Nunes da Rosa, teve a sua primeira paróquia na freguesia do Mosteiro na Ilha das Flores de onde veio transferido para a freguesia de seus pais, a freguesia das Bandeiras na Ilha do Pico onde foi pároco e ouvidor eclesiástico da Madalena.
Naquela freguesia fundou com tipografia própria, o jornal “SINOS D’ALDEIA”, no qual tinha uma coluna “Cartas dum Aldeão”, assinadas com o pseudónimo “João Lavrador”.
Numa dessas cartas dizia ele que nos finais do século XIX, vivia no lugar do Morros da freguesia das Lajes das Flores, um octogenário conhecido pelo “Papa das Lajes”, que alcançou nomeada na Ilha tanto pela sua vida mística, como e principalmente pelas suas profecias.
O velho vaticinava: quedas de ministérios, mudanças de governos, catástrofes, tempestades e outras, que assombravam pela sua realização.
Deram-lhe grande fama as profecias anunciadas em 1896, com a morte do Rei D. Carlos, o curto reinado de D. Manuel e a mudança de regimen em Portugal com a saída do país da Rainha D. Amélia acompanhada do seu filho D. Manuel II, que se refugiaram no Iate D. Amélia para o porto de Gibraltar e dali para Inglaterra. Anunciou ainda uma “Grande Guerra na Europa. A primeira grande guerra.
Todos estes vatícinios foram realizados.
Na sua carta o Padre Nunes da Rosa, dizia que nas Flores muitas pessoas conheciam estas profecias do “Papa das Lajes”.
Mas o que o velhote vaticinava era que a “América viria a acabar com a guerra, mas as nações iriam depois guerrear com a América aniquilando o seu poderio”. Terminava a carta dizendo: “Vejamos se se cumpre esta profecia do “Papa das Lajes”, que já há muito dorme o sono eterno”.
Pelo que se está a passar no mundo, onde o direito Internacional, e a justiça passou a ser dominada pelo mais forte, a fome e a miséria serem o sustento de escandalosas ostentações e manifestações de riqueza, vamos lentamente caminhando para a concretização dos vatícinios do “Papa das Lajes”.
Não tenhamos ilusões pois os primeiros passos foram dados, basta aguardar para ver-mos o que vai acontecer.
Muito irão sofrer as jovens gerações durante um período que se aproxima a passos largos, até que a ordem deixe de ser palavra vã e o homem deixe de ser lobo do próprio homem.
Email do autor: Francisco Medeiros
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sábado, 3 de abril de 2010

GENTE QUE FAZ A HISTÓRIA - Padre António Francisco Rodrigues


Autor: Francisco Medeiros
O Padre António Francisco Rodrigues foi Vigário Cooperador da Ouvidoria de São Roque na década de 60 do século passado.
Exercia o seu múnus de sacerdote na Igreja de São Pedro de Alcântara, anexa ao Convento Franciscano no Cais do Pico.
Homem simples de convivência sã, o Padre Rodrigues tinha sempre uma p
alavra de estímulo para todos quantos dele se abeiravam.
As suas práticas na missa, baseadas no conhecimento da vida do dia das pessoas, eram relacionadas com exemplo de vida dos santos, que prendiam a atenção de todos quantos assistiam aos actos de culto.
O Padre Rodrigues foi um grande dinamizador para a juventude do Cais do Pico, onde congregou um numeroso grupo de jovens que aproveitavam os tempos de lazer num movimento de Acção Católica
que funcionava na Casa dos Terceiros, anexa à igreja.
É destes jovens com quem contacto ainda hoje, a ele se referem e o recordam como um homem bom que os ajudou de alguma forma, e deixou um marco nas suas vivências sociais que os tem acompanhado pela vida fora.
Natural do lugar do Cascalho, da freguesia dos Cedros, Ilha do Faial, onde nasceu em 29 de Julho de 1909, era o mais velho de oito irmãos, filhos de Francisco Rodrigues e de Maria de São José Rodrigues. Frequentou a Escola Primária dos Cedros, tendo como professores, Manuel Dionísio, que foi diretor do Museu da Horta e Constantino Magno do Amaral que foi diretor da escola e dos Correio da Horta. Ingressou no Seminário de Angra com a idade de 18 anos e foi ordenado Presbít
ero a 20 de Junho de 1937. Um dos motivos que o levou ao seminário, deve-se ao fato da mãe ter falecido jovem, com 37 anos. Desde cedo ele, como irmão nais velho, tinha de cuidar dos irmãos. Cuidava da casa e aprendeu a fazer pão de milho no forno, tarefa que fazia, como um dos melhores padeiros. Na ilha Terceira foi Pároco na Vila Nova e trabalhou em Santa Barbara e no Pico foi Vigário Cooperador na Madalena, e no Faial, na freguesia da Feteira.
Por razões que desconhecemos, o Padre Rodrigues deixou a Diocese de Angra, embora no tempo se comentassem razões da sua saída do Pico.
Mais tarde soubemos ter emigrado para São Paulo no Brasil, tendo-se fixado na cidade de Piquerobi, Paróquia de São Miguel Arcanjo, criada no dia 8 do mês de Maio de 1945, data que marcou o término da II Guerra Mundial.
O Padre Rodrigues foi empossado por Dom José de Aquino, em 10 de Janeiro de 1965, como Vigário na Igreja Matriz da Paróquia de São Miguel Arcanjo e passou a residir na Casa Paroquial.
Ali continuou o seu múnus de Sacerdote tendo dado um grande impulso à comunidade, trabalhando especialmente com a juventude.
Tendo adoecido, foi internado na Santa Casa de São Paulo, onde veio a falecer em 5 de Maio de 1970. Foi sepultado em Piquerobi, por baixo da sacristia da Igreja Matriz da Paroquia de São Miguel Arcanjo .
Faltou um pouco de caridade a quem a praticou durante uma vida!?

Email do autor: Francisco Medeiros

Email do Leitor:
Esta grande rede da internet que nos liga todos!
Nasci nos Cedros Faial. Sou sobrinha do Padre Rodrigues e vivo na California.
Mais uma vez adoro as suas historias do seu blog. Obrigada por pôr os seus sentimentos em forma de todos partilharmos.
Noelia (Alvernaz Rodrigues)

Resposta do Autor:
É sempre bom saber que há alguém que nos lê !
Obrigado pela sua mensagem .
Não sei de onde é, mas julgo que conhece quem foi mestre Manuel Joaquim Neves, que fazia o favor de ser meu amigo, e com quem profissionalmente contactava com muita frequência, ali na Delegação marítima do Cais do Pico, onde eu trabalhava.
Um abraço
Francisco Medeiros



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terça-feira, 30 de março de 2010

Um emigrante do Pico

Autor: Francisco Medeiros
O Pico amanheceu descoberto, algumas nuvens dispersas, aqui e além, de vez em quando passam-lhe na frente, mas logo volta a aparecer na sua plenitude. E é lindo este Pico, com algumas manchas de tons verdes e pedra, realçadas pelo Sol, que vai subindo no horizonte para os lados do Topo em São Jorge, pondo no mar reflexos de , para além da cidade, avista-se nitidamente o casario disperso por entre tons verdes coroados pela sua Caldeira.
No canal, para os lados do Calhau, Areia Larga e Madalena, avistam-se as velas brancas dos Barcos do Pico, que se vão afastando da costa em, demanda do porto da Horta. Vão carregados de lenha, vinhos e frutas.
Um rasto de espuma branca vai formando uma esteira, no entre o Pico e o Faial, denuncia a primeira lancha dos Lourenços, a lancha da fruta, a caminho do Porto da Madalena.
Próximo da costa Norte do Pico, à saída do canal Pico/ S. Jorge, um grande navio, todo branco, navega para o Ocidente. Vai-se aproximado rapidamente da costa Norte do Faial, para os lados da do farol da Ribeirinha.
Estamos no mês de Julho, as labutas daqueles que trabalham a terra são muitas.
Tudo se conjuga para mais um dia de trabalho de Sol a Sol nas vinhas ou nas culturas. Os que tem vacas nas “criações” vem da ordenha de “canecas” às costas, cheias de leite, para alimentação ou fabrico do queijo caseiro. Para estes, o dia começou ainda antes do Sol nascer. Percorrem os caminhos dos matos riscados com os trilhos do carros de bois.
No cabeço de cima, o António, com uma “vimadeira” numa mão e uma luva de pele de porco na outra, vai mondando o silvado entre as pedras da vinha, o suor a escorrer-lhe por baixo do chapéu de palha. Levanta-se, limpa o suor que lhe tapa os olhos com um trapo, espécie de lenço, feito de uma camisa velha. O olhar espraia-se por toda esta paisagem, mas os seu olhos fixam-se exclusivamente naquele navio todo branco, que se vai perdendo no horizonte a caminho da América.
Levantara-se de madrugada. Sempre os mesmos trabalhos, repetitivos e divididos ao longo do ano, conforme a época das sementeiras e das colheitas, complementados com uns dias que dá p’ra fora em troca com os vizinhos.
De uma família com mais cinco irmãos, três rapazes e duas raparigas, todos ajudam nos trabalhos da lavoura, no amanho das terras, com excepção de um dos irmãos, que por deficiência de um pé, dedica-se à profissão de sapateiro.
O dinheiro que entra naquela casa é para satisfazer o mínimo das necessidades indispensáveis: É o boi que se exporta todos os anos, algum dia dado p’ra fora pago a dinheiro por algum agricultor mais abastado, o vinho e a lenha vendidos para o Faial aos fregueses apalavrados.
O António sonha com uma vida melhor. Aquele navio todo branco associa-o às conversas de quase todos os dias, que ouve na casa de ensaio da música, ou no botequim do José Nunes, onde à noite se desloca para saber de algumas novidade ou discutir as colheitas que se fazem, os preços do leite ou do gado, acompanhados de um jogo de “Sueca”.
É assim a rotina de quase todos os dias.
A América não lhe sai do pensamento, as histórias que ouve, as sacas de roupa que os vizinhos recebem, vindas da América, de parentes emigrados, alguns de “salto” nas Baleeiras. Todos os dias, estas histórias martelam-lhe a cabeça.
Há dias, ao falar com um vizinho, que também vai emigrar, ouviu falar sobre os navios da “Fabre Line”, que fazem escala na Ilha do Faial para Providence, de que é agente José Furtado Cardoso, este trata de todos os documentos, incluindo passagens em caminho-de-ferro para a Califórnia. Quase todos os dias comenta-se que um ou outro conhecido está a tratar de documentos para emigrar, com cartas de chamada de familiares. A América é o sonho de uma vida melhor, para muitos jovens da Ilha.
Um dia ao chegar a casa disse ao pai que queria emigrar, mas para isso teriam que pedir dinheiro emprestado, ou vender um dos bois que estavam no mato. Naquela noite ninguém dormiu naquela casa, só a pensar que o António os ia deixar por muitos anos. Foi como se tivesse morrido um familiar. A mãe andava de lagrimas nos olhos pelos cantos da casa, sem que ninguém a visse. Era um dos seus filhos que os ia deixar.
Nos dias seguintes começaram os preparativos, colher informações mais precisas sobre passagens e o recurso a um vizinho mais abastado para emprestar o dinheiro. Parecia que aquela casa tinha levado uma volta.
E chegou o dia, uma manhã de Primavera. Com uma mala de madeira, três mudas de roupa, calçado com umas botas novas feitas pelo irmão sapateiro, lá seguiu para o Faial no barco “Adamastor”, acompanha-o um vizinho, com quem já vinha falando há muito e que agora também partia. Embarcou nas vésperas das Festas do Espirito Santo, junto com outros dois rapazes do Pico, rumo à América.
O António à poupa do navio, à saída do Cais, olhava para o Pico, a freguesia e a Igreja de Santa Maria Madalena por entre os Ilhéus, invadido já pelas saudades, uma lágrima rebelde corria-lhe pela cara. Veio-lhe à memória todo o tempo passado na Ilha, revendo o passado, mas também a esperança de melhores dias para o futuro iam-lhe reconfortando a alma.
- Um dia, quando eu voltar, vou acompanhar Santa Maria Madalena na procissão, descalço, em todo o percurso.
- Se chegar a juntar algum dinheiro, vou lavar a Coroa do Senhor Espirito Santo e convidar para a minha mesa todos os pobres nossos vizinhos e amigos.
À medida que o navio se afastava, a Ilha ia-se tornando mais pequena, por momentos pensou que se estivesse no Pico já não embarcava, mas a decisão estava tomada e o navio já não voltava p’ra trás.
Já noite alta, deixou de avistar o farol dos Capelinhos na Ilha do Faial. Foi à procura do camarote, que o acolheu até à sua chegada a terras da América.
Email do autor: Francisco Medeiros

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segunda-feira, 1 de março de 2010

Eu sacristão.


Autor: David Avelar
Na década de sessenta do século passado com 10 anos de idade, por influência do padre Rodrigues, comecei a ajudar à missa, na igreja São Pedro Alcântara. Desde a época de catecismo que eu tinha verdadeira adoração pelos rituais da igreja. Os odores, os cânticos, o eco proveniente deles, os paramentos, tudo me atraía. Com facilidade aprendi os rituais litúrgicos. Responder à missa em latim, para mim, criança, era como falar a língua de Deus. Todos os dias, às seis da manhã, ou à noite às seis horas, ou às novenas, ao anoitecer o ângelus, acompanhava a perpétua, fazendo o trajeto da casa de meu avô, à igreja passando por minha escola, pelo hospital descendo a ladeira, desemboca no adro do majestoso edifício do Convento Franciscano, com a sua majestosa igreja anexa. Ali, na fria sacristia, preparava-me para abotoar umas três dezenas de botões, que compunham a minha batina sacristão. Depois preparava a água e o vinho, que iriam fazer parte da eucaristia. Em seguida me dirigia ao altar-mor, onde acendia as velas. Em dias de festa, a sala à direita, se transformava numa imensa floricultura, onde a Maria Fernandina, preparava com carinho, os arranjos de flores que iriam decorar os altares. Essa sala, dava para um pequeno cemitério clerical. A essas horas, o padre Rodrigues já se encontrava também nos preparativos para a a celebração da missa. Eu caminhava para a torre para tocar os sinos, com o toque das missas vespertinas. Haviam diversos dobrados, um para cada cerimônia. Casamentos, batizados, funerais, ângelus. Vinte e cinco toques de sino.
Em 1992, quando retornei a minha terra, com minha esposa, visitei a igreja com a avó Matilde e encontrei uma velha amiga de infância, Dolores Xareta. Quando voltei em 2004, vi que o altar da direita já tinha sido reformado, mas que a igreja ainda continuava no mesmo estado de abandono. O Convento na verdade fazia parte de um complexo, que por muitos anos foram instalados a Câmara, o Tribunal da Comarca da Ilha do Pico, as repartições de Finanças, a tesouraria da Fazenda Pública e a Conservatória do Registro civil e predial. Há que se fazer aqui, uma observação. No lugar chamado Cais do Pico, para mim um dos mais lindos da ilha do Pico, lugar onde nasci, é que se situam, até hoje, todos órgãos administrativos, do Concelho da Freguesia. Na verdade, São Roque é uma vila a mais ou menos uns 5 kms de distância. Ali situa-se a sede paroquial da freguesia. Um dos mais iminentes párocos, foi o padre Soares, do qual eu tinha muito medo. O padre Rodrigues, era uma pessoa muito especial, gostava de tomar seu vinho, fumar seu cigarrito. Sua marca favorita era gauleses, um cigarro francês, muito forte. Costumava sentar na varanda da casa de minha mãe alugada à paróquia, e ficar vendo-me brincar no quintal. Muitas vezes, ante a minha curiosidade sobre assuntos bíblicos, respondia de uma forma didática e de fácil entendimento, o que me levou a amar história e por conseguinte a Bíblia. Já no Brasil, soube que veio para cá, como missionário, morando em Santos-SP. Anos depois, faleceu de malária no Centro-Oeste do Brasil. Foi com imensa alegria e emoção que ao retornar em 2004, pude observar que a fotografia dele, se encontrava na entrada da sacristia, como uma homenagem póstuma, àquele que sem dúvida nenhuma, foi o melhor padre da nossa igreja.
Uma vez para sair da rotina enfadonha das manhãs das missas vespertinas em vez de colocar água e vinho, nas galhetas, para eucaristia coloquei água e água. No meio da consagração ao perceber a brincadeira, fitou-me com olhar maroto. No edifico do Convento no Inverno, funcionava o cinema-teatro, num salão do rés-do-chão e a cadeia da Comarca, que de vez em quando abrigava incauto, preso na maioria das vezes por ter tomado um copo a mais.
Mas uma das minhas grandes aventuras da igreja, foi quando perto da Semana Santa, ao retirar os panos para cobrir as estátuas e as janelas descobri atrás do altar-mor, uma porta que dava para uma caverna. Atrevi-me a descer os degraus de pedra, mas ao ver o primeiro esboço de uma caveira, voltei correndo e fui contar para padre Rodrigues. Ele com cenho franzido ralhou comigo e me pediu para esquecer o que eu tinha visto. Anos depois conversando com o meu avô, ele me contou que, provavelmente, o que eu tinha descoberto era real, pois numa só noite, 3 de Setembro de 1759, quando o Marquês de Pombal expulsou jesuítas, os monges que ali viviam sumiram, provavelmente tendo acesso ao mar por essa caverna. Em 1992 conversei o meu primo Norberto Medeiros que vivia da pesca lagostas e cavacos, de mergulho e que também confirmou que já tinha tido acesso a essa caverna, na maré baixa. Se é verdade ou não, isso ficou na minha memória de criança, como um fato inusitado. Outra lenda e essa sim, é uma lenda, é que os monges tinham um tesouro guardado num dos pilares das escadas de acesso, ao segundo andar do monastério, onde havia realmente um bojo da sua base, mas se alguém tentasse quebrar aquele pilar, toda a arcada de pedra de acesso ao claustro, ruiria. No centro do adro, ainda se encontra a cruz de pedra, onde tantas vezes eu brinquei. Eu roubava as hóstias e celebrava missas de mentirinha, ali em frente àquela cruz. Espero ainda ver um dia a minha igreja. O mais engraçado, é que mesmo com toda a riqueza de ouro, prata, marfim e ícones religiosos, a igreja estava sempre aberta. Os trabalhos de entalhe em madeira de lei brasileira, feitos a canivete segundo consta, destacando-se principalmente as gavetas da sacristia onde se guardavam os paramentos. O Ostensório e o Turíbulo de prata, a magnífica Cruz Processional. Recordo-me da preocupação em manter a lamparina vermelha, situada ao centro da nave principal em frente o altar-mor, sempre acesa. Uma bóia de cortiça flutuando sobre azeite, fazia com que o pavio se mantivesse à distância certa do azeite e queimasse eternamente. Este conto também é uma homenagem póstuma, àquele que foi meu mentor espiritual. Padre Rodrigues. Tal foi sua influência, que vim para o Brasil aos 13 anos, com a intenção de seguir a carreira eclesiástica. Ainda freqüentei o Seminário São Vicente de Paula, em Petrópolis. Mas ao ver o sincretismo religioso e as lindas mulheres deste país, cheguei à conclusão que, certamente, seria um péssimo padre. Aqui constituí uma família linda. Hoje tenho uma amada esposa, com quem vivo há 33 anos, sou pai de duas filhas maravilhosas e tenho uma neta que é minha princesa. Dádivas de Deus.
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domingo, 28 de fevereiro de 2010

EXPORTAÇÃO DE AZEITE DE BALEIA E A TÁBUA QUE VOOU!


Autor: Francisco Medeiros
A caça à baleia nos Açores começou na segunda metade do século XVIII, sob a influência das baleeiras inglesas e americanas, que demandavam as baías e os portos das Ilhas dos Açores, para se abrigarem, abastecer-se da víveres ou descanso das tripulações.
O capitão geral dos Açores, em 1768, informou o governo da presença no arquipélago de 200 embarcações (Botes Baleeiros) que teriam obtido 800 contos em azeite de cachalote espermacete e algum âmbar.
Em 1760, na Nova Inglaterra, as baleeiros não conseguiam fornecer às fábricas esperma
cete suficiente para satisfazer a procura, e o preço do azeite de baleia elevou-se, pela primeira vez em 1864. Os preços subiram acima dos100 dólares por barril.
Esta importância era aliciante, o que levou os homens do mar a organizarem-se em armações em alguns portos Açoreanos, onde era mais frequente a passagem dos cardumes de cachalotes.
Uma Lei Régia de D. Luís, datada de 26 de Maio de 1862, finalmente veio incentivar a caça à baleia, isentando de impostos e imposições marítimas durante 10 anos aquele actividade em portos nacionais.
A Caça à baleia teve grande relevo na economia das populações de algumas ilhas, que a ela se dedicavam, bem como no comércio das localidades onde se situavam as estações baleeiras. O Inquérito I
ndustrial da Pesca, datado de 1889, dava conta da sua existência no Arquipélago dos Açores de inúmeros baleeiros.
No inicio o azeite de baleia era produzido em grandes caldeiros a lume directo, nos portos onde se situavam as estações baleeiras .
Nos anos quarenta e cinquenta do século XX foram construídas fábricas apetrechadas com autoclaves, que além da extracção de óleo de melhor qualidade (menor grau de acidez), faziam o aproveitamento quase total dos cachalotes, incluindo farinhas de carne e ossos e extracção de vitaminas dos fígados.
O azeite de baleia tinha muitas e variadas aplicações: Iluminação pública e particular, lubrificante de máquinas, industria farmacêutica, tintas, calafeto de embarcações, curtumes para calçado, indústria de sabões e outras. No pátio do Museu Anchieta, em São Paulo, no Brasil, h
á uma parede histórica de quase 500 anos, feita de barro e óleo de baleia pelo padre Afonso Brás.
Mais recentemente, óleo de baleia foi usado na exploração espacial. Descobriu-se que o óleo de espermacete não congela, mesmo em temperaturas muito baixas, reage bem a altas temperaturas e não se degrada facilmente, tornando-o num lubrificante ideal para equipamentos lançados ao espaço.
O condicionamento do óleo de baleia para exportação, a partir dos Açores, passou por três
fazes distintas: Inicialmente exportação em barris de madeira, depois em bibons de ferro e por último a granel em navios/tanque.
A primeira foi a mais difícil. Havia que contratar localmente tanoeiros para o fabrico de barris e não havia muitos.
Aqui no Cais do Pico fabricaram-se muitos barris destinados à exportação de azeite de baleia, outros eram adquiridos por essas ilhas fora.
Na Praceta dos baleeiros, ao lado de um poço de maré, onde funcionou a oficina das Armações Baleeiras Reunidas do Cais do Pico, havia uma moagem tocada por força motriz, à qual foi adicionado um volante, que por sua vez fazia mover uma serra circular para serrar madeira para fabrico de barris. Esta tarefa esteve, por algum tempo, a cargo de Manuel José da Silveira, mais conhecido por mestre Janeiro e um seu ajudante Gabriel Vieira Maciel, conhecido por
Gabriel da Ricardina, que também exerceu a caça à baleia na qualidade de maquinista.
Certo dia estavam a serrar madeira de incenso e mestre Janeiro, que gostava de fazer as suas experiências, disse ao Gabriel:
- Vamos serrar esta tábua de suta para pouparmos trabalho!
Mestre Janeiro dá-lhe uma pequena inclinação, mete a tábua na serra e esta atira a tábua até ao teto!
Ficaram a olhar um para o outro, como quem diz, se ela apanha um de nós, não sei o que seria!?
Mestre Janeiro que punha o seu brio em tudo o que fazia disse para o Gabriel:
- Ó Gabriel, isto não se diz a ninguém !
Não disse, mas soube-se !
Email do Autor
xatinha@sapo.pt


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Data: 13/2/2010 11:35:45 - Roger Dias - Ontário - Canadá
Olá Senhor Goulart!
Sou Faialense ausente no Canadá há 43 anos. Adoro sempre ler artigos antigos e recentes do Faial, embora nao tenha muita experiência de escrever. Mas um dia destes irei partilhar algumas histórias, "para que o amigo Francisco Medeiros, as ponha em papel", pois quanto a este site, sinceramente, estou a gostar imenso, até me da vontade de imprimir tudo o que aqui está. Muito, muito obrigado, pela sua iniciativa.
Bem, haja e continue . (sic)
Cá de longe ADORAMOS
Roger Dias
Ontario
Canadá

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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Amália Rodrigues visita o Pico.

A nossa querida Amália Rodrigues (1920-1999), visitou o Pico. Neste vídeo, ela está na Igreja de São Mateus. Queria agradeçer à Diana Zaidman, por nos proporcionar este momento, em que maior interprete do fado, vem à nossa terra. Tem muita literatura interessante sobre Amália na Net. Mas um site que chama atenção, por ser curto e objetivo, é o www.amalia.com .

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sábado, 13 de fevereiro de 2010

Homenagem à ilha-montanha, o nosso Pico.

Pois é, recebi mais fotos do nosso Pico cheio de neve. Com os dedos coçando, dei inicio à versão 2.0 da edição das fotos. Obrigado à minha sobrinha Paulinha e a outros amigos por fazer o up-grade de imagens.
Aumente o volume e clique na foto abaixo para assistir.


Imagens publicadas apenas para ilustração cultural, sem fins lucrativos.
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Comentários recebidos por email:
19/2/2010 23:56:14 - de John L. Moniz.
Obrigado Sr. Goulart pelo seu site. É muito bonito de ver. Eu sou açoriano, nascido em S.Miguel. Estou radicado aqui nos Estados Unidos da América, há 36 anos, e so fui uma vez aos Açores em 1979, mas é sempre bom recordar a nossa terra. São nove ilhas encantadas.
Subescrevo-me.
John L. Moniz
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Fernando Pessoa.



Conversando com o Primo Francisco, ele me lembrou Fernando Pessoa. Poeta maior da nossa língua, Pessoa era um enigma com seus heterónimos. Mas quem quer saber porque ele escrevia como Ricardo Reis, ou como Álvaro de Campos, ou Alberto Caieiro. A poesia que nos toca fundo o coração é esta:


MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Publicação de artigos.

Os leitores estão perguntando se podem publicar seus contos, suas estórias.
Fiquem à vontade!
Para isso, mandem seus contos e uma foto pessoal.

Fotos inerentes à narrativa serão indexadas.
Email para postagem:
David Avelar

davidavelargoulart@gmail.com


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A estação baleeira dos Capelinhos na ilha do Faial.






Autor: Francisco Medeiros



O Porto Baleeiro do Comprido, na parte Oeste da Ilha do Faial foi a maior estação baleeira e a mais produtiva na caça à baleia do Arquipélago dos Açores.
Até ao ano 1957, durante a Campanha de Verão, os baleeiros alojavam-se em casas construídas em pedra cobertas de palha de trigo a que chamavam palhotas. Na rampa do porto varavam cerca de 20 botes baleeiros, pequenas embarcações de pesca e na sua pequena baia ancoravam 7 lanchas baleeiras a motor.
Parte destas embarcações, pertenciam às Armações baleeiras Reunidas, do Cais do Pico, Ilha do Pico, que por falta de baleias no Canal Pico/S. Jorge , baleavam de parceria com as Armações do Faial que também para ali se deslocavam.
Para se fazer uma ideia em 1945 os botes daquela estação caçaram 67 baleias, que produziram 180 toneladas de óleo, vendidos a 4$00 o quilo.
Por aquela estação baleeira, passaram os mais afamados, oficiais, trancadores e mestres baleeiros do Pico e do Faial.
Para mencionar alguns. recordo-me de José Brum, mais conhecido por José Batata que baleou no Capelo 22 anos, o irmão deste, Francisco Brum de Simas, o Pé Leve, nascidos na Ribeira do Meio; os filhos deste o João Pé Leve que foi mestre da lancha Garota e o Alberto Pé leve.
Do Cais do Pico O António Joaquim Madruga pai e filho, Os irmãos, António e Manuel Fula, este com 6 filhos todos baleeiros; dos quais o José Fula, também oficial, fez a proeza de caçar 4 baleias num só dia, o Manuel Fula que foi mestre de lancha baleeira ; Os mestres José Caneca e os filhos João que foi maquinista e o José também oficial baleeiro; O Manuel Peixe Rei ; Os Januários, oficiais e trancadores estes também proprietários de armação baleeira; Os Cristianos, mestres e maquinistas ; Os Aldeias, com destaque para o Tomé Carapinha que foi trancador, oficial e mestre de lancha.Os Bispos, O João que foi mestre de lancha, o Edmundo maquinista , o António que foi o último trancador do Cais do Pico, e o José remador.
Do Faial os Serpas da freguesia das Angústias, João Serpa, pai e os filhos Mário e Jaime Serpa, este também com descendência de baleeiros tinham o alcunha de Cabritos, de onde saíram um mestre de lancha e trancadores; O Mestre Manuel Santa Barbara, oficial baleeiro de que foi seu trancador um dos grandes baleeiros do Faial, o José de Jesus conhecido pelo José Rofino, que terá sido o último oficial a exercer a actividade baleeira na Ilha do Faial.
Por ali passaram muitos outros do Pico e Faial que não conheci: Mestre João Lelé, Mestre João Maurício e outros das Lajes e das Ribeiras do Pico.
Muitos outros baleeiros do Cais do Pico, se deslocavam para o Capelo, acompanhados da família: Lavavam as suas embarcações de pesca, para ali pescarem e quando tempo não estava de feição pescavam na costa, vendiam o peixe na freguesia do Capelo ou salgavam-no para trocar por milho. Outros ajudavam os agricultores daquele freguesia, muitos deles também baleeiros. As carências eram tantas que estavam sempre preparados para a sua sobrevivência.
Como disse o Poeta tinham sempre -um pé em Terra outro no Mar. Quando regressavam no fim da campanha já traziam o milho, para sustento da família.
Recordo-me de um oficial Baleeiro, o Luisinho, de pequena estatura natural e residente no Capelo. Vinha à cidade com frequência. Certo dia na taberna do João de São Mateus junto ao Canto da Doca ali junto à Igreja das Angustias no Faial, o José Cardoso, oficial baleeiro, homem forte, que também estacionou no Porto do Comprido, convidou o Luisinho para tomar um copo, ao chegar perto do balcão agarrou-o pela roupa com uma só mão e sentou-o em cima do balcão.
Nas vigias d
e baleia do Costado da Nau, sobranceiras ao Farol dos Capelinhos que apoiavam os baleeiros do Porto do comprido, passaram muitos vigias de grande fama. O Izaias, o Rosairinha, os Caldeiras , o António Jezinho, João Lúcio e muitos outros.
Na madrugada do dia 27de Setembro de 1957, com a terra balançando continuamente, os vigias de baleia do Costado da Nau, a escassos metros acima do Farol, notaram o oceano revolto a meia milha da costa, para os lados de oeste. Desceram dos Costado da Nau pela última vez, alertaram os faroleiros e os baleeiros estacionados no Porto do Comprido ali próximo. Tinha-se extinguido a maior Estação Baleeira do Arquipélago dos Açores.
O mar entrava em ebulição e havia cheiros fétidos. O Vulcão dos Capelinhos tinha entrado em actividade.





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Comentários por email, inerentes a este artigo:
Helena Morais (São Jorge)
Foi com muita pena que li o JP de 5 de Fevereiro (cronicas do cais). Sou filha e neta de Baleeiros da Ilha de S.Jorge das Velas e quando o Vulcão dos Capelinhos entrou em actividade, o meu Pai também por lá andava, na mesma companhia baleeira que os do Cais do Pico e nem deles se dignou falar. Talvez um dia alguem se lembre deles.
Comprimentos de uma natural de S.Jorge.



Resposta do autor:



-É sempre bom saber que, há alguém, que nos lê.
Pela Estação Baleira dos Capelinhos, no Porto do Comprido, passaram centenas de baleeiros, do Pico e do Faial.
Como refere, na sua mensagem, também muitos de S. Jorge. Pelo que agradeço a sua informação, que será preciosa para futura referência na caça à baleia.
Na minha crónica, procurei referir aos que conheci e que tinham um maior número de familiares, que viviam quase exclusivamente da caça à baleia.
É possivel que tenha conhecido os seus familiares, pois as matriculas das baleeiras dos Cais do Pico passavam todas pela minha mão, quando exerci funções na Delegação Maritima do Cais do Pico.
Se possivel, gostaria de saber quantos familiares seus exerceram a caça à baleia, os nomes e as categorias!
Muito obrigado pela sua mensagem.
Francisco Medeiros (Ex-cabo de mar do Cais do Pico)



Helena Morais (São Jorge)
Obrigada pela sua resposta sr. Medeiros. O meu Avô, era mestre da lancha, o nome dele era Manuel Dias. O meu Pai foi marinheiro do barco, trancador e até chegou ser mestre da lancha. O seu nome era Amaro Carvalho Medeiros, o irmão dele era o oficial do bote em que ele andava se chamava João. Já todos falecidos! O Pai do meu Pai, tambem era baleeiro. Morreu novo. Nem o conheci. Também se chamava Amaro Carvalho de Medeiros. O meu tio Eurico também foi trancador. Também já faleceu e outros parentes com a mesma arte que eu ja nem conheci, talvez o senhor tenha conhecido algum deles.
Continue a escrever e a dar a conhecer, como era nesse tempo.
Mais uma vez muito obrigada pela sua resposta
Comprimentos
Helena
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Publicação de Contos da Ilha-Maior

Os leitores estão perguntando se podem publicar seus contos, suas estórias. Fiquem à vontade!
Para isso, mandem seus contos e uma foto pessoal. Fotos inerentes à narrativa serão indexadas.
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A MULHER DO PICO




Autor: Francisco Medeiros

A Mulher do Pico é a herdeira viva das mulheres que um dia aportaram a esta Ilha, há mais de 500 anos, para apoiar os seus companheiros.
Sempre animadas e cheias de fé, com o suor do seu rosto vergadas por vulcões, suportando todas as calamidades, ajudaram a transformar estas pedras negras em pão e garantiram a continuidade e o bem-estar daqueles que hoje vivem à volta da sua montanha.
Pode dizer-se que a Mulher do Pico foi aquela que ao longo dos séculos se moldou à natureza e características vulcânicas, da própria ilha.
Como mulher, esposa e mãe, trilogia que foi cumprida durante todas a etapas da sua vida, a Mulher do Pico, nunca desanimou e foi a base de sustentação do maior pilar do Mundo, a família.
A par com o homem na labuta do dia-a-dia, a Mulher do Pico percorreu milhares de quilómetros por veredas irregulares, entre currais de vinha e figueiras, cestos de uva e selhas à cabeça, qual bailarina, com o seu passo elegante, num palco imaginário tendo como cenário a montanha do Pico
Pote de água à cabeça, cesto de vimes com roupa no braço, lá ia ela a caminho da costa, onde lavava, enxugava e corava a roupa por cima das pedras negras e, de regresso a casa, trazia água dos poços de maré para os usos domésticos.
Desde os princípios do povoamento procura no mato a lenha com que coze os alimentos, faz o pão de cada dia e acende a lareira que aquece o lar nas noites invernosas.
A Mulher do Pico não tinha tempos livres: Usa o Tear para confeccionar o vestuário e agasalhos para toda a família. Tudo era aproveitado. Não existia trapo a que não fosse dado qualquer uso.
Quantas voltas dariam ao Pico os novelos de lã de ovelha transformados em meias e em peças de vestuário e os fios de linha transformados em peças de renda de rara beleza, pacientemente elaborados pela noite dentro, à luz da candeia?
Eram elas em casa que ensinavam aos seus filhos os Dons da Natureza, os bons costumes, o respeito pelos outros, incutindo-lhes ânimo e confiança sem medos.
Quantos dias e noites de angústia pois as carências eram tantas, para que os seus meninos dessem os primeiros passos na Ilha, mas também de muitas alegrias, ajudando-os a crescer, fortalecidos na harmonia de um lar sem complicações, na infância e juventude e, tornados adultos, cumprissem a sua missão como cidadãos do Mundo.
Muitas foram as limitações que superaram, que hoje, a séculos de distância, a memória dos homens não pode imaginar!
Hoje há de tudo, é mesmo ali ao lado e quem não quiser por o pé fora de portas, vem-lhes ter tudo a casa, mesmo aquilo que não presta e excede as nossas necessidades.
Vila de São Roque do Pico
Um Bom Ano
Janeiro 2010

xatinha@sapo.


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