Crônicas, contos e narrativas do passado, de gente que vive na ilha do Pico, ou estão espalhadas pelo mundo e tem muitas estórias para contar. Mande seu conto.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Lenda de um Baleeiro da Ilha do Pico

Do Facebook de Feliciano das Neves
A Lenda de um Baleeiro da Ilha do Pico é uma tradição da ilha do Pico, no arquipélago dos Açores, que fala da coragem do que é ser-se baleeiro, e dos perigos que se corria para ganhar o pão nosso de cada dia.
A lenda passa-se há muito tempo, numa manhã ensolarada na localidade de São João do Pico, logo depois do raiar da aurora. O sol levantava-se para os lados das Lajes do Pico e a cor verde dos vinhedos e dos milheirais destacava-se por entre o negro das pedras queimadas dos vulcões.
Os homens dirigiam-se para as suas terras para a jornada do dia, para sachar o milho, bater tremoço, apanhar batatas ou cuidar das das uvas. Nas suas cozinhas, as mulheres preparavam o almoço que naqueles tempos era quase sempre composto por sopas de bolo, papas de milho ou batata com peixe.
Subitamente soou alarme de baleia à vista. Algures numa das vigias de baleia estrategicamente colocadas ao longo da costa foram disparados foguetes. Os homens largaram o que faziam. Os sachos caíram para o chão, os alviões ficaram enfiados na terra nos locais onde estavam. As burras de milho foram abandonadas com as canas por amarrar. Os animais foram presos a um galho de árvore próximo e os homens correram para os cais. As mulheres em casa prepararam uma merenda apressada e também elas correram para o cais a levar ao comida aos maridos numa saca de retalhos de pano antes de eles partirem para o mar.
Os primeiros a chegar arriaram os botes baleeiros, pondo-os na água, e partiram assim que tinham a tripulação completa. No cais, as mulheres ficaram a chorar sem saber se na luta entre o homem e o grande animal alguém morreria, como frequentemente acontecia.
Depois de algumas milhas de navegação à vela com o vento a favor, avistaram a baleia ali próxima. Era uma grande baleia adulta, um espermacete com mais de cem barris de óleo segundo os cálculos, o que seria uma fortuna. Logo se gerou com grande reboliço nos botes, uma baleia daquele porte não se via todos os dias. Representava não só a comida ganha para muitos dias, mas também um prazer para os homens que estavam habituados ao mar e à batalha desta pesca.
As velas foram arreadas e os homens começaram a remar para se aproximarem da baleia, que resfolgava, soltava esguichos de respingos no ar, mergulhava para voltar a aparecer metros mais á frente. No bote que primeiro se conseguiu pôr em posição, o arpoador curvara-se para a frente, fixara o olhar na baleia e acertara o arpão.
Ferida, a baleia acelerou o seu nadar, afastando-se do bote e levando no dorso o arpão amarrado a uma corda forte, que se ia desenrolando de uma selha no fundo do bote. A corda não teve comprimento suficiente e foi amarrada a uma segunda corda, numa segunda selha, até que não havia mais cordas. O trancador pegou na parte da corda que ainda estava na celha e antes que ela acabasse, amarrou-a à sua cintura. Assim, foi arrancado do bote e levado pelo mar, puxado pela baleia que nadava para o desconhecido, sem que alguém tivesse tempo de intervir.
Vigia nos Capelinhos - Faial
Podendo contar apenas com velas e remos para navegar, os botes não tinham velocidade para perseguir o animal, mas deram inicio a uma busca provavelmente fútil. Ao chegar da noite tiveram que rumar para terra, abandonando o trancador. A família deste vestiu-se de luto e as mulheres choraram e carpiram de dor durante toda noite.
Quando a manhã do dia seguinte nasceu, saíram novamente botes para o mar numa procura por muitos considerada vã, mas que era necessário, mais que não fosse se não por descargo de consciência. Era uma tentativa de encontrar o corpo do trancador para lhe ser dado um enterro digno.
Depois de muitas milhas de afastamento da costa, avistaram na linha do horizonte, que no mar é sempre baixo, uma mancha negra, e estranhando o fenómeno rumaram para lá. Ao chegarem encontraram uma grande baleia já morta a flutuar e em cima dela, de pé, o trancador, encostado ao cabo do arpão.
Perfeitamente bem, disse: "Agora é que vocês chegam? Tenho estado aqui toda a noite à espera!". Fumava um grosso cigarro, embrulhado em casca de milho, como se estivesse sentado a uma mesa. Reza a lenda que ele nunca disse o que se passou nem onde foi buscar o cigarro de folha de milho nem o lume com que o acendeu.


terça-feira, 1 de outubro de 2013

Mestre Simão: nome de uma das novas lanchas da Atlânticoline

Por Francisco Medeiros
Podem contar-se por centenas os Mestres dos barcos de boca aberta e das lanchas que, de todos os portos do Pico, com carga e passageiros, atravessaram o canal de e para o Porto da Horta.
Alguns em barcos de maior porte só à vela navegaram para todas ilhas do Arquipélago, dispondo apenas de aparelhos bastante rudimentares de navegação e sem meios de comunicação. A prática adquirida durante muitos anos fez deles grandes navegadores, alcançando grande prestígio entre a classe e a população.
Manuel Alves
Há 54 anos Mestre Simão era mestre das lanchas da Empresa das Lanchas do Pico, Lda. Cruzou o Canal Pico-Faial centenas de vezes, algumas com tempo menos bom, com manobras difíceis e perigosas, que punham à prova a sua alta perícia na entrada dos portos da Fronteira, incluindo os portos de São Mateus e Prainha do Galeão. Fez ainda muitas viagens em regime de fretamento para os Portos do Grupo Central dos Açores.
Mestre Simão foi um dos grandes da comunidade do Canal. Cumpriu com os seus deveres profissionais sem nunca ter recusado efetuar qualquer viagem, por vezes durante a noite, a pedidos de socorro para transportar doentes, alguns em perigo de vida para o Hospital da Horta.
Manuel (Simão) Alves nasceu no Faial, na freguesia das Angústias. Descendente de marinheiro, também ele abraçou a atividade marítima. Foi meu vizinho durante alguns anos e tinha-mos um bom relacionamento de amizade entre famílias.
Mestre Simão, chefe de família exemplar, era pai de sete filhos mas tinha uma vida económica familiar difícil. Como tantos outros, e pensando num futuro melhor para os seus, acabou por emigrar em Julho de 1966, para New Bedford, nos Estados Unidos da América, ao abrigo das facilidades concedidas aos Faialenses, após a atividade vulcânica dos Capelinhos.
Através de pessoa amiga soube que faleceu em New Bedford a 29 de dezembro de 1985.
Na sua campa foi colocada a silhueta da lancha Espalamaca e por baixo a palavra Alves. Escusado será dizer que quem por ali passar fica pouco esclarecido ao ver a imagem de uma embarcação e o nome Alves. Até aqueles que o conheceram por Mestre Simão, podem não relacionar aquele nome com ele. Fiquei com bastante pesar, embora respeitando a intensão da iniciativa.
Nunca fui com a modalidade de os portugueses, quando chegam aos países de emigração, serem muitas vezes tratados apenas pelo apelido e outros alterarem mesmo, o nome próprio, em especial nos Estados Unidos da América e Canadá, isto até onde vai o meu conhecimento. Conheço exemplos como José mudar para Joe e Pereira para Perry.
Quando contactamos com alguns desses emigrantes nas redes sociais, até que se identifiquem completamente, não sabemos com quem estamos a falar.
Depois aparecem por aí alguns descendentes à procura das suas raízes, falam mal o português ou não sabem uma palavra e os nomes dos familiares que querem encontrar parecem hieróglifos. Já me apareceram alguns desta forma.
Não sei quem foram as pessoas ou pessoa ligada à Atlânticoline que teve a iniciativa de propor o nome de Mestre Simão a um dos novos navios que vão navegar no Grupo Central dos Açores. Pela minha parte fiquei bastante agradado pela justa e merecida homenagem que lhe é prestada, perpetuando assim a sua memória!
Vila de São Roque do Pico

Setembro de 2013
NOTA: Mestre Simão Chamava-se Manuel Alves, segundo como consta da cédula marítima. Esteve matriculado na Lancha Espalamaca desde 18 de Outubro de 1959, até 1966. Era filho de Simão Alves, cabo de mar, no Porto da Horta falecido em 12 de Novembro de 1962. Já reformado.
O Município da Horta, prestou-lhe homenagem, pondo o seu nome a uma rua das Angústias: Manuel Alves (Mestre Simão). Rua Manuel Alves (Mestre Simão)-Santa Bárbara, Angústias 9900-164 Horta.
Era também muito conhecido por Manuel Simão, entre os vizinhos e amigos. Simão era herança do Pai, como era vulgar antigamente: Nestas duas ilhas, Faial/Pico de onde tenho mais conhecimento era uso os jovens usarem o primeiro nome, ligado a um dos ascendentes mais conhecidos, na freguesia. Exemplos: Fernando do José da Luísa, o José era o Pai e a Luísa era a avó. Manuel do Júlio, Júlio era o pai. José Rufino, Rufino era o Pai Rosairinha era o nome da avó etc…

 Francisco Medeiros
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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Arqueólogos revelam segredos das pirâmides da ilha do Pico

Matéria da Expresso

Os resultados das primeiras sondagens arqueológicas das estruturas que terão sido construídas antes da chegada dos portugueses aos Açores são apresentados hoje.

Uma das 140 pirâmides estudadas pelos arqueólogos na Madalena do Pico. Foram todas construídas em pedras basálticas de origem vulcânica conhecidas por biscoitos. Algumas chegam a ter 13 metros de altura (o equivalente a um prédio de habitação de quatro andares) e câmaras no seu interior.


Anzóis, pontas de metal, ossos, conchas, pesos de redes de pesca, utensílios feitos de basalto, carvões e fragmentos de peças de cerâmica, foram descobertos nas primeiras sondagens arqueológicas autorizadas pelo Governo Regional dos Açores (Direção Regional da Cultura) às misteriosas estruturas piramidais da Ilha do Pico.

As pirâmides estão quase todas concentradas numa área de 6 km2 no concelho da Madalena, junto à costa oeste da ilha dominada pela montanha mais alta de Portugal (2351 metros) e a divulgação pública das descobertas é feita dia 27 às 21h00 numa conferência na Câmara da Madalena.  



As sondagens foram feitas por Nuno Ribeiro e Anabela Joaquinito, que estão entusiasmados com os depósitos de artefactos antigos que encontraram, e que tudo indica serem muito anteriores à data da descoberta dos Açores pelos portugueses (1427).

Mas os dois arqueólogos da Associação Portuguesa de Investigação Arqueológica (APIA), que estão a ser apoiados pela Câmara Municipal da Madalena, têm um vasto trabalho de prospeção pela frente: há dezenas de pirâmides no local, que chegam a atingir 13 metros de altura, o equivalente a um prédio de habitação de quatro andares. Mas para já estudaram 140, algumas destruídas ou parcialmente derrubadas por sismos ou pela ação humana.
A tradição baseada na memória popular e os poucos estudos etnográficos existentes indicam que "estas estruturas, conhecidas por maroiços, datam dos séculos XVII a XIX, justificando-se a sua construção pela necessidade da limpeza dos solos para a agricultura", explica Nuno Ribeiro. De facto, a palavra maroiço significa monte de pedras associado à limpeza de terrenos agrícolas.


Estruturas semelhantes no Mediterrâneo

Mas esta explicação não convence o presidente da APIA, porque "existem várias edificações com mais de dez metros de altura, seguindo a mesma orientação geográfica". E porque no território português "não encontramos esta opção arquitetónica em mais nenhum local". Em contrapartida, "há paralelos arquitetónicos com regiões do Mediterrâneo - na ilha da Sicília junto ao Monte Etna, por exemplo".
Anabela Joaquinito conta que quando foram mostradas à população da Madalena fotos das construções da Sicília, "disseram que eram iguais aos maroiços". A arqueóloga que estudou a indústria lítica (tecnologia de trabalho da pedra) e é diretora do Departamento de Pré-história da APIA, sublinha que há outros indícios arquitetónicos da origem pré-portuguesa das pirâmides do Pico, como "a existência de degraus e a decoração com pináculos no topo". No topo de uma das construções estudadas foi também encontrado um piso circular que parece ser a base de uma habitação.
Uma das estruturas é um complexo arquitetónico que inclui edifícios piramidais organizados de forma a criar uma grande praça. "Esta organização do espaço não pode ser explicada apenas através da limpeza dos terrenos, pois terá envolvido um grande planeamento e um trabalho coletivo que demorou alguns anos a construir, seguindo sempre o mesmo projeto arquitetónico", argumenta Nuno Ribeiro.
"Mais espantoso é o facto de estas estruturas obedecerem às mesmas orientações das outras pirâmides, com aparentes motivações astronómicas e sugerindo rituais funerários", acrescenta o arqueólogo.  


Sinto-me no México

"Sinto-me no México", garantiu Romeo Hristov, arqueólogo da Universidade do Texas em Austin (EUA), quando visitou os maroiços do Pico em abril passado. Hristov pertence à corrente académica que defende a existência de contactos regulares entre as antigas civilizações do Mediterrâneo e da América.
"As estruturas do Pico são muito perfeitas, implicam uma enorme quantidade de trabalho que não se justifica apenas pelas necessidades da atividade agrícola", considera o arqueólogo. Por outro lado, "há uma orientação astronómica rigorosa, rampas de acesso e escadas associadas ao conceito de estrutura sagrada".
E no complexo "que liga vários edifícios piramidais encontram-se elementos comuns a pirâmides em todo o mundo, como uma praça ampla para cerimónias". Mas uma conclusão definitiva sobre a origem das estruturas "vai depender das escavações arqueológicas, que são fundamentais".
E também "das datações dos materiais encontrados que forem feitas em laboratório", esclarece Anabela Joaquinito. A arqueóloga explica ainda que algumas destas pirâmides têm câmaras no seu interior e uma delas foi objeto de sondagens arqueológicas. "A câmara é pequena e o corredor de acesso demasiado estreito e longo, não seria prática para quaisquer usos agrícolas".


Regularidade na orientação das pirâmides

"O que mais me impressionou foi a regularidade da orientação das pirâmides do Pico, embora acredite que nem todas foram construídas na mesma época. Esta regularidade é evidente no mapa com a sua localização feito pela Câmara da Madalena", afirma por sua vez Fernando Pimenta.
O diretor do Departamento de Arqueoastronomia da APIA usou ferramentas de informação geográfica nesta primeira investigação e concluiu que a maioria das pirâmides está orientada no sentido sudeste/noroeste.
Sudeste é a direção do vulcão da ilha do Pico e noroeste corresponde ao ocaso do sol no solstício de verão, que acontece sobre a ilha do Faial, muito próxima do Pico. Quanto às restantes pirâmides, têm uma orientação perpendicular às primeiras.
Fernando Pimenta admite que "parece ser intencional - e não apenas uma coincidência - a orientação geográfica das construções e a escolha do local para a sua implantação".
Uma concentração tão grande de pirâmides num intervalo tão pequeno de azimutes (o azimute é a medida regular do horizonte contada a partir do norte geográfico) e com esta regularidade, significa que há intencionalidade, "mas claro que esta conclusão não é tão definitiva, do ponto de vista estatístico, como seria se as estruturas estivessem espalhadas por toda a ilha e não apenas concentradas numa pequena área do concelho da Madalena".
O arqueoastrónomo adianta também que as regras de orientação "parecem obedecer a princípios que incorporavam algum ritual relacionado com o solstício de verão".


Defesa da verdade histórica

Entretanto, o presidente da Câmara da Madalena salienta que "o envolvimento do município neste processo é norteado pelo forte empenho na defesa da verdade histórica e na necessidade de conhecer e preservar as raízes do nosso povo", o que "é do interesse de todas as instituições, sejam elas científicas, políticas ou outras, incluindo o Governo Regional dos Açores".
Mas a prova definitiva da origem pré-portuguesa das pirâmides "terá de ser obtida através de uma datação clara e inequívoca dos materiais encontrados", insiste José António Soares, reconhecendo que a comprovação de todos estes achados permitirá novas oportunidades de desenvolvimento turístico.
"Não queremos apagar a história açoriana mas sim acrescentar algo à história já conhecida e, se possível, enriquecê-la com os novos dados disponíveis", acrescenta o autarca.


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domingo, 14 de outubro de 2012

O SUBMARINO QUE FUNDEAVA NO CAIS DO PICO


 Autor: Francisco Medeiros
                                                                      
Li quase sem parar o livro de Manuel Paulino Costa, U-Boats nos Mares dos AçoresBatalha do Atlântico 1939-1945.
O livro descreve uma parte da História do Pico e Faial, de uma maneira muito particular, a Ilha do Faial pela importância do seu Porto artificial, onde foi instalada uma base naval Inglesa de apoio aos navios aliados que cruzavam o Atlântico Norte.
O Porto da Horta está por isso intimamente ligado à História da II Guerra Mundial.

Vivi na Horta e nos últimos dois anos da Guerra, de certa forma tomei parte na atividade que se desenvolvia no seu Porto, muitas vezes cheio de navios. Veio-me à memória aquele fervilhar de gentes, uma época alta no desenvolvimento económico da ilha, com destaque para o todo comércio local.
U-boat 14  "O lobo solitário"
Das empresas Bensaúde e Fayal Cool de apoio à navegação para abastecimento e das oficinas de reparação naval, com numerosos profissionais de renome, chefiadas por mestres de rara competência, várias vezes referenciados pelos países da nacionalidade dos navios ali reparados, algumas merecendo engenho e arte bastante complexas. Estão neste caso os navios Hororata, que foi torpedeado a 200 milhas ao largo das Flores sofrendo um rombo e a colocação do hélice no Aurora trabalhos estes que hoje só seriam possíveis de realizar em doca-seca.

Repararam-se centenas de navios, alguns com avarias resultantes de ataques em operações de guerra.
Corveta Chanticleer, ao largo do Pico
Do Navio-tanque Empire Garden, amarrado no meio da baía, que abastecia os navios de guerra estrangeiros e da Corveta Chanticleer, atracada entre o plano inclinado e o cais onde se situavam os armazéns da Bensaúde e Fayal Cool para abastecimento de carvão a navios.
Do relato de frotas envolvidas na Batalha do Atlântico, durante a II Guerra Mundial, Manuel Paulino tem pormenores que não conhecia do salvamento de um tripulante Alemão, dum submarino afundado ao largo da freguesia da Candelária da Ilha do Pico. Este contato entre picarotos e submarinos alemães relembrou-me outras histórias que me contaram.
Até à metade da década de 50 do século passado, o óleo de baleia era carregado em bidons para o estrangeiro  através do Continente, mas após a Segunda Guerra Mundial, passou a ser carregado diretamente para o estrangeiro em navios tanque. Para isso foi instalada uma linha de tubos [pipe-line], montados sobre pequenas jangadas flutuantes, que se podem observar no Museu da Indústria da Baleia. Idêntico procedimento foi levado a efeito em Santa Cruz das Flores e nas Lages do Pico. Quando cheguei ao Cais do Pico e assumi as funções de prático do Porto, em Janeiro de 1960, amarrei vários navios junto à Rampa da Fábrica das Armações Baleeiras Reunidas, Ltdª. para mais facilmente carregar óleo de baleia.
Um dos primeiros navios/tanque que ali carregaram óleo de baleia, mas na década de 50, anteriormente à minha chegada, era de nacionalidade alemã, tal como quase todos os outros. Quando o navio chegou ao Cais do Pico, o José Cristiano de Freitas e Sousa, mais conhecido pelo José Cristiano Novo foi a bordo acompanhado de um intérprete, para indicar onde o navio devia posicionar-se para carregar o óleo. O Comandante iniciou a manobra e posicionou o navio facilmente onde ele pretendia, como se conhecesse a baía.
Toda esta manobra foi presenciada por muitas pessoas entre as quais muitos marítimos, a quem causou admiração, dado que se tratava de uma manobra que requeria conhecimento de fundos e baixios!
Contou-me o José Cristiano que, depois do navio estar amarado, perguntou ao Comandante do seu à vontade ao fazer a manobra, tendo tido como resposta que durante a Segunda Guerra, era oficial de um Submarino que tinha fundeado na Baía várias noites para descanso da tripulação e por isso conhecia muito bem a baía.
Uma outra aproximação de um Submarino, deu-se junto à costa da freguesia Candelária na marca onde as embarcações de pesca do Porto do Calhau, durante o dia e noite pescavam aos chernes.
Contou-me meu sogro, António Garcia Goulart, mais conhecido por Mestre António do Calhau, que durante a Guerra estava no seu barco à pesca, quando um dos pescadores que estava com ele disse: Está ali o caixote por cima do mar. Puseram-se todos de pé a olhar e repararam que caixote fazia reflexo do Sol. Um deles disse, vamos ali ver o que é mas quando se preparavam para se aproximar do caixote, este começou a andar para fora com certa velocidade fazendo um risco à superfície do mar acabando por desaparecer.
Adicionar legenda
No Tempo da Guerra, pescavam toda a noite indo amanhecer ao Faial para vender o peixe onde era mais lucrativo. Meu sogro quando foi pagar o dízimo ao Posto da Guarda Fiscal, contou o avistamento do caixote ao Cabo que estava de serviço, tendo este lhe dito que se trataria do periscópio de um submarino.
O Livro de Manuel Paulino Costa é mais uma obra que muito contribui para o reavivar de memórias e um contributo importante para a História destas Ilhas e da sua ligação à II Guerra Mundial!


Vila de São Roque do Pico
Outubro de 2012

Nota do WebMaster David Avelar - Eu e meu primo Francisco Medeiros, compartilhamos pela mesma fascinação pelo mar e tudo o que flutua ou submerge. O filme "Caçada a Outubro Vermelho", o clássico protagonizado pelo ator Sean Connery, é um exemplo. Eu já assisti umas 20 vezes, sem exagero.

Obra literária do autor:
Homens de Olhos Encovados & Outras Estórias de Homens do Mar



segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O PORTO DO CALHAU DA MADALENA


                                                                                                                       Autor: * Francisco Medeiros



O Porto do Calhau situado no Lugar do Monte, na freguesia da Candelária do concelho da Madalena na Ilha do Pico nos Açores, até à década de 50 do século passado, servia uma população desde o lugar do Campo Raso até ao Lugar do Monte de Baixo da mesma freguesia. Segundo Gaspar Frutuoso, as únicas freguesias existentes na “Fronteira“ eram a Madalena e São Mateus esta criada em 1580 com uma população muito dispersa entre matos com 364 habitantes vivendo em 52 fogos. A freguesia da Candelária não existia.
A única referencia à zona onde hoje se situa a freguesia da Can- delária, refere aquele autor a uma ponta onde se carrega muita madeira chamada Calhau de Domingos Gonçalves o Ruivo.
Curioso é que atualmente na matriz predial rútica do concelho da Madalena e referente à freguesia da Candelária há um sítio do cabeço do Ruivo, próximo da zona onde se situa o Porto do Calhau.
Em 1645 segundo Frei Diogo das Chagas já existia a freguesia da Candelária, e em 1690, segundo Frei Agostinho de Montalverne com 273 habitantes em 71 fogos.
Segundo Norberta Amorim a freguesia da Candelária em 1831 terá atingido os 2258 habitantes, talvez o maior número de sempre até agora registado.
O Porto do Calhau servindo aquelas duas freguesias Candelária e São Mateus, chegou a possuir três barcos que atravessavam o Canal transportando mercadorias: Para o Faial madeiras, lenha para queimar, vinhos e aguardentes e muita fruta; Para o Pico, bens de consumo, milho e farinha e outros.
Foi ainda um porto de pesca em cuja rampa de varagem chegou a ter cerca de 20 embarcações de pesca, que forneciam peixe às populações da freguesia.
Durante o Verão no Porto do Calhau tinha um certo movimento, para ali convergiam muitos passageiros e mercadorias.
No Inverno com ventos e mar do Quadrante Nordeste, antes e depois de reparado, o Porto do Calhau servia recurso às lanchas do Pico quando o Porto da Madalena se tornava impraticável!
O Porto do Calhau, serviu ainda de apoio uma Industria de peixe Gata, do qual depois de laborado se extraia o peixe que era salgado e seco ao sol, a pele lixa e o óleo dos fígados que eram exportados para o Continente e para o estrangeiro. As Traineiras da safra do Atum também ali descarregavam o peixe com destino à Fábrica da Cofaco, na Areia Larga no Concelho da Madalena.
No final da década de 50 do século passado, a Direção Geral dos Serviços Hidráulicos, estabelece uma Delegação na Ilha do Faial, chefiada pelo Engenheiro Corbal Hernandez, e em 1954 iniciam-se a grandes reparações em três Portos do Pico:
Porto do Calhau que se tornou numa obra de grande volume. O cais acostável, foi todo construído de novo, construíram-se muros de abrigo ao cais e a rampa de varagem de embarcações foi toda calcetada.
No Cais do Pico, foi reparado o cais acostável, construiu-se o muro de defesa do varadouro e acesso ao Porto.
Na Calheta do Nesquim, construiu-se o cais acostável, e muro de resguardo e a rampa de varagem para embarcações.
O Porto do Calhau, ficou concluído à cerca de sessenta anos! Precisa de uma intervenção profunda no seu piso!
Muito aguentou com o mar do Oeste quando rebentava na baixa do Canal e se atirava por terra dentro.
O Seu varadouro necessita de uma reparação e muro de defesa do lado Norte do varadouro, necessita ser reconstruido pelo menos 10 metros a partir do HZ
Da Ilha de Nosso Senhor Jesus Cristo
Setembro de 2012
* Francisco Medeiros é autor do livro Homens de Olhos Encovados & Outras Estórias de Homens do Mar”Saiba mais...

segunda-feira, 30 de julho de 2012

“Homens de Olhos Encovados & Outras Estórias de Homens do Mar”, livro de Francisco Medeiros é lançado neste sábado 28 de julho.

por David Avelar
Pode parecer lugar comum mas vale a máxima, que um homem realizado é aquele que plantou uma árvore, teve um filho e escreveu um livro.
Para Francisco Medeiros esse dia chegou. Apesar de escrever seus artigos há muitos anos, nos jornais picoenses e no blog "A Sombra do Vulcão"*, agora entra para hall da fama que  congrega escritores de prosa e verso da língua portuguesa. Mantém a herança genética, vocacional de sua avó, Amélia Ernestina Avelar*, poetisa, de grande valor, ao lançar sua obra literária “Homens de Olhos Encovados & Outras Estórias de Homens do Mar” na Feira do Livro do Cais Agosto 2012, instalada na sala de exposições do Museu da Indústria Baleeira de São Roque do Pico, sábado (28).
Francisco Medeiros, pai de Paula e Francisco, casado com Conceição, inspirado por Almeida Firmino, o Caldeira, poeta que conheceu, que dá nome a rua onde reside, é um saudosista, cujo realismo nos seus artigos, nos remete ao passado. Inconformado com a má política atreve-se a protestar contra o atual "status quo" da insensatez humana. Mas é no mar que tem sua principal fonte de inspiração. Cabo de Mar, respeitado por onde passou exercendo sua profissão, deixou amigos. Sempre elegante até mesmo quando está pescando, ele vive uma existência digna dos maiores méritos.

 Em 2004, nos recebeu com grande afeto e hospitalidade, junto com sua família. Agora contamos os dias para retornar aos Açores e rever Francisco.
Links relacionados:

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Ilha do Corvo vivencias - Meios de comunicação


                                                                                  por Francisco Medeiros
Na Ilha do Corvo em 1959, existia uma estação de correios dos CTT., no edifício da Estação Meteorológica do Corvo situado a cerca de um quilómetro da Vila em local sobranceiro ao pontinho da areia com um funcionário Manuel Patrício, chefe da estação, e um carteiro, de nome Jorge para onde era encaminhado e recebido todo o correio.
No dia que o navio escalava o Corvo, pelo menos uma pessoa de cada casa se deslocava à estação, para receber correio, quando assim não acontecia a distribuição era feita no outro dia.
A Estação dos Correios estava ali instalada em virtude daquela Estação Meteorológica possuir um rádio de comunicações TSF, pelo sistema Morse, operado pelo chefe, por onde eram transmitidos e recebidos todos os telegramas.
A Ilha do Corvo possuía uma das mais importantes estações meteorológicas do Arquipélago, e possivelmente do Atlântico Norte. Funcionando em regímen de observações, 24 horas dia, com 4 Observadores Meteorológicos: Fernando Rocha, Óscar da Rocha, António Luis André e Carlos Corvelo e um contínuo Manuel Joaquim Vicente, que também fazia observações.
Da leitura dos aparelhos de observação de hora a hora, era elaborada uma mensagem em código com grupos de cinco algarismos, transmitida pelos observadores pela TSF. A mensagem era transmitida para a Estação Radionaval das Flores, passava pela Estação Radio Naval da Horta e dali até centro de Previsão em Santa Maria que elaborava a previsão para todo Arquipélago.
Não havia telefones nem comunicações radiotelefónicas com o exterior.
 Outros meio de comunicação com o exterior, além do navio Carvalho Araújo, que mensalmente escalava a Ilha, havia os navios Cedros e Arnel da Empresa Insulana de Navegação. Estes navios por vezes não tinham contacto com a Terra em virtude das condições do tempo não o permitir. Quando assim era provocava algumas carências de bens alimentares e outros.
Além dos navios havia uma pequena lancha a motor de boca aberta de Gregório Luis André, policia reformado, que era seu proprietário e mestre. Esta lancha fazia contactos entre a freguesia de Ponta Delgada e a Vila de Santa Cruz das Flores, pois aquela freguesia a mais Ocidental de Portugal não era servida por estrada. Esta lancha fazia algumas viagens à ilha do Corvo, transportava a mala de correio, alguns passageiro e pequenas encomendas.
Os barcos do Corvo que faziam o transporte de mercadorias e passageiros aos navios que faziam escala na Ilha, também quando as necessidades a isso obrigavam faziam algumas viagens às Flores.
Eram armados com 4 remos, utilizavam uma vela latina triangular, suportada por uma vara em madeira, fixa pelo meio a um curto mastro na bancada central.
 Fiz uma viagem num destes barcos do Corvo para Santa Cruz das Flores, que durou quatro horas num percurso de 15 milhas. Viagem com pouco vento, que de vez em quando amainava, ficando o barco parado. Recordo-me que com a sua fé os tripulantes oravam à “Coroinha” de São Lourenço, para que mandasse vento mas com moderação.
Quase todas as famílias possuíam um recetores de rádio alimentado a pilhas ou baterias carregadas com aérodinamos de onde ouviam notícias.
De uma maneira geral o Corvino procuravam informar-se do que se passava no Arquipélago e no País. Além disso alguns recebiam revistas e jornais que chegavam do exterior.
Vila de São Roque do Pico
Maio de 2012